Frederico Lima

agosto 09, 2026

Quem é Hermes na Mitologia Grega?

As origens históricas e arqueológicas de Hermes remontam à Grécia Micênica, como comprovam os registros em escrita Linear B encontrados nos palácios de Pilos e Cnosso. O próprio nome do deus parece estar intimamente ligado à palavra herma, que designava um monte de pedras ou um pilar quadrangular encimado por uma cabeça humana e dotado de um falo ereto. Esses monumentos primitivos eram erigidos ao longo de caminhos, limites territoriais e cruzamentos para marcar fronteiras e garantir a proteção dos viajantes. Assim, antes mesmo de se consolidar como uma deidade antropomórfica refinada na poesia homérica, Hermes já exercia uma função arquetípica essencial: a sacralização dos espaços de transição e do movimento no espaço físico.

Na narrativa mitológica da tradição grega, expressa de maneira magistral no Hino Homérico a Hermes, o deus é filho de Zeus e da ninfa Maia, uma das Plêiades. Seu nascimento ocorreu em uma caverna no monte Cilene, na Arcádia. Desde as suas primeiras horas de vida, Hermes manifestou a natureza ambígua e prodígio que o caracterizaria. Ainda bebê, ao sair do berço, encontrou uma tartaruga na entrada da gruta; matando o animal, utilizou seu casco juntamente com tripas de ovelha para inventar a lira, o primeiro instrumento de cordas da tradição helênica. No mesmo dia, tomado por um apetite insaciável e por um desejo incontido de afirmar sua estatura divina, viajou até a Pieria e roubou o rebanho de gado pertencente ao seu irmão, o deus Apolo.

Para ocultar seu delito, Hermes demonstrou uma astúcia engenhosa: fez os animais caminharem de costas para que as pegadas parecessem ir na direção oposta e atou ramos de árvores aos seus próprios pés para disfarçar os passos. Quando Apolo descobriu o roubo e confrontou o recém-nascido, Hermes negou categoricamente o crime com discursos persuasivos e cínicos diante de Zeus. O rei dos deuses, divertindo-se com a audácia e o engenho do filho caçula, ordenou que Hermes revelasse o paradeiro do rebanho. A reconciliação entre os dois irmãos selou-se quando Hermes presenteou Apolo com a lira recém-inventada. Encantado com a música divina do instrumento, Apolo concedeu a Hermes o cajado de ouro e o domínio sobre os rebanhos, consagrando o jovem deus como mestre da música, da barganha e da negociação.

A iconografia clássica de Hermes reflete com precisão sua natureza itinerante e funcional. É frequentemente representado trajando o pétaso, um chapéu de abas largas utilizado por viajantes para se protegerem do sol, e calçando as talárias, sandálias aladas que lhe conferem a capacidade de voar a velocidades extraordinárias para cumprir as ordens dos deuses. Em suas mãos, ele ostenta o caduceu, um bastão entalhado ao redor do qual se entrelaçam duas serpentes, simbolizando a paz, a diplomacia e o poder de conciliação. O caduceu tornou-se o emblema supremo dos mensageiros e embaixadores no mundo antigo, garantindo-lhes inviolabilidade durante o exercício de suas missões em terras estrangeiras.

O papel de Hermes como mensageiro de Zeus coloca-o no centro dos principais episódios da mitologia heroica e épica. Na Odisseia de Homero, é ele quem viaja até a ilha de Ogígia para ordenar à ninfa Calipso que libere Odisseu, permitindo que o herói retorne à sua pátria em Ítaca. É também Hermes quem fornece a Odisseu a erva mágica moly, capaz de neutralizar os feitiços da bruxa Circe. Na Ilíada, Hermes atua como protetor do velho rei Príamo, guiando-o secretamente através do acampamento grego até a tenda de Aquiles para resgatar o corpo de seu filho Hélio. Em todos esses episódios, manifesta-se a aptidão do deus para cruzar barreiras perigosas, sejam elas físicas, mágicas ou políticas.

Além de intervir no mundo dos vivos, Hermes cumpre a tarefa fundamental de psicopompo. Ao contrário de Hades, que governa o mundo subterrâneo mas raramente dele sai, Hermes possui livre trânsito entre o Olimpo, a Terra e o Submundo. Quando o sopro vital de um mortal se apaga, é Hermes quem toma sua mão e guia a sombra através das trevas até as margens do rio Estige, onde o barqueiro Caronte assume a condução do espírito. Essa função mediadora reforça sua condição de deus liminar, único capaz de habitar os limiares entre a vida e a morte, a luz e a escuridão, a palavra dita e o segredo guardado.

A complexidade de Hermes manifesta-se ainda em sua dimensão ética e social. Enquanto protetor dos Comerciantes, ele favorece a troca, a circulação de bens e a prosperidade resultante do contato interpessoal. Simultaneamente, por ser o patrono dos ladrões e dos trapaceiros, ele abençoa o uso da inteligência ardilosa, conhecida pelos gregos como metis. Essa aparente contradição revela que a religiosidade grega não percebia Hermes como uma divindade maligna, mas sim como a personificação do imprevisto, da sorte fortuita e das oportunidades súbitas que surgem nas dobras da vida cotidiana.

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, J. S. Mitologia grega: 21ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. 3 v.

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BURKERT, Walter. Greek Religion. Reprint. Cambridge: Harvard University Press, 1987.

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GRAVES, Robert. Os Mitos Gregos: Box com dois volumes. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.

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GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.

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KÉRÉNYI, K. Os Deuses dos Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997.

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VERNANT, J-P. Mito e Pensamento entre os Gregos. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2008.

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agosto 09, 2026

Breve resenha crítica da Ilíada, de Homero

Atribuída à figura semilendária de Homero, cuja existência histórica e autoria individual permanecem no centro da chamada Questão Homérica, a Ilíada consolida-se como a certidão de nascimento da literatura ocidental. Composta no período Arcaico da Grécia Antiga, por volta do século VIII a.C., a epopeia origina-se de uma longa tradição oral rapsódica antes de sua fixação manuscrita posterior em Atenas, ocorrida por volta do século VI a.C. O poema epiciza um recorte de cinquenta e um dias no décimo e último ano da Guerra de Tróia, fundamentando a cosmovisão helênica sob os alicerces da ética heroica e da constante interseção entre o plano humano e a vontade divina.

No plano da teoria da narrativa, a obra está estruturada de maneira heterodiegetica com focalização onisciente, na qual o narrador não apenas contempla as ações terrenas, mas transita livremente pela esfera olímpica. A diegese não intenta abraçar a totalidade do conflito troiano; em vez disso, organiza o tempo diegético a partir do nó dramático anunciado nos versos de abertura: a ira de Aquiles (mênis). A recusa do herói mirmidão em combater após o desacordo com Agamenão desestabiliza a verossimilhança interna da aliança grega, desnudando as fissuras morais de uma aristocracia regida pela busca inegociável por glória (kléos) e honra (timê).

As esferas de ação distribuem-se em dois eixos simétricos e trágicos. De um lado, Aquiles encarna a construção de um pathos hiperbólico e a aceitação consciente do destino fatal; de outro, Héctor, príncipe troiano, surge como o contraponto civilizacional, movido pelo dever cívico e pela proteção da pólis e de seu núcleo familiar. Personagens como Agamenão, Ulisses e Pátroclo funcionam como catalisadores dessa engrenagem. Ao despojar o herói grego de seu companheiro mais próximo durante a inflexão da batalha, a narrativa tensiona o arco dramático e precipita o retorno devastador de Aquiles ao campo de combate, em um movimento onde a fúria desmedida devora temporariamente as fronteiras éticas entre o combatente e a selvageria.

Sob a perspectiva estética e estilística, o poema faz uso do hexâmetro dáctilo, ritmo métrico concebido para a memorização e a recitação oral. A linguagem é entremeada por epítetos épicos recorrentes, como "Aquiles de pés ligeiros" ou "Héctor domador de cavalos", e por símiles homéricas de caráter desacelerador, nas quais cenas de violência militar são subitamente contrastadas com imagens da natureza ou do cotidiano pastoril. Esse recurso não apenas amplia a densidade poética, mas introduz uma pausa reflexiva na cadência dos combates, humanizando o horror da guerra sem higienizar sua brutalidade.

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Capa do livro Nome do Livro

Ilíada

por Homero

📖 Páginas: 720 🏢 Editora: Penguin-Companhia Minha Avaliação: 5/5

Livro fundador da literatura ocidental que narra a tragédia de Aquiles e a Guerra de Troia em uma nova tradução do helenista português Frederico Lourenço. Primeiro livro da literatura ocidental, a Ilíada parece se tratar, pelo título, apenas de um breve incidente ocorrido no cerco dos gregos à cidade troiana de Ílion, a crônica de aproximadamente cinquenta dias de uma guerra que durou dez anos.

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O que significa GARATUJA na Língua Portuguesa?

A palavra garatuja possui origem expressiva e popular no português, remontando ao século XVII. Sua evolução está associada à base onomatopeica e imitativa de movimentos rápidos, desordenados ou arranhados.

Deriva da raiz expressiva ou hispânica garat- / garatusa (relacionada ao espanhol garatusa, que significa afago dissimulado ou gesto rápido/debandada), com influência do tema garra (de origem pré-românica/celtibérica, referindo-se a unhas ou garras que arranham). O sufixo -uja atua como um elemento pejorativo ou depreciativo no português (semelhante a maroto -> marotagem / pataco -> patacocada).

O termo fixou-se no vocabulário em referência a traços malfeitos, garranchos ou rabiscos confusos produzidos por uma mão trêmula, inexperiente (como a de uma criança na fase do desenvolvimento motor inicial) ou apressada.

Separação Silábica, Classificação e Tonicidade

  • Divisão Silábica: ga-ra-tu-ja

  • Número de Sílabas: 4 sílabas (Polissílaba)

  • Tonicidade: Paroxítona (a sílaba tônica é tu, a penúltima sílaba). Por terminar na vogal "a", não recebe acento gráfico.

Classe Gramatical e Flexões

  • Classe: Substantivo feminino.

  • Flexão de Número: Singular (garatuja), Plural (garatujas).

  • Acepção Figurada/Desenvolvimento infantil: Na pedagogia e na psicologia do desenvolvimento, o termo é empregado técnica e formalmente para designar a primeira fase da expressão gráfica infantil (a "fase da garatuja"), em que a criança realiza traços desordenados ou circulares antes do domínio da escrita e do desenho figurativo.

Sinônimos e Equivalentes de Sentido

  • Garrancho

  • Rabisco

  • Garavato

  • Borrão

  • Garatujada

  • Escrito ilegível / Grafia confusa

Utilização em Frases

  • O garoto orgulhoso mostrou aos pais a primeira garatuja feita com giz de cera na folha de papel.

  • O documento antigo continha apenas uma garatuja indecifrável no local reservado para a assinatura do testemunho.

  • Na fase inicial da alfabetização, é essencial respeitar o momento em que a criança expressa sua criatividade por meio da garatuja.

Referências Bibliográficas

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 40. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2024.

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BECHARA, Evanildo. Gramática Escolar da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.

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CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa: Edição com gabarito. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.

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CUNHA, Celco; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 8. ed. Rio de Janeiro: Editora Lexikon, 2025.

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HOUAISS, Antônio. Pequeno Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: Editora Moderna, 2015.

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LIMA, Carlos Henrique da Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

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agosto 08, 2026

O que é Foco narrativo na Teoria da Literatura?

Dentre os elementos constitutivos do texto em prosa, nenhum desempenha papel tão determinante na estruturação do sentido quanto o foco narrativo. Também conhecido pela crítica teórica como ponto de vista ou perspectiva narrativa, o foco narrativo designa a posição de onde se observa e se relata a história. Trata-se da lente através da qual os acontecimentos, os cenários e as motivações das personagens são filtrados antes de alcançarem a consciência do leitor. Não se deve confundir a figura do autor, a pessoa real de carne e osso que concebe o livro, com a entidade discursiva do narrador, a voz inventada que conduz o relato. A escolha dessa voz orienta o grau de informação que será compartilhado ou ocultado ao longo da trama.

Historicamente, o estudo do foco narrativo ganhou relevância à medida que a literatura de ficção, sobretudo o romance nos séculos XIX e XX, abandonou as fórmulas épicas tradicionais para explorar a subjetividade, os limites da percepção humana e a fragmentação da verdade. Ao definir a voz que fala, o autor toma uma decisão de ordem estética e filosófica. O foco narrativo pode ser construído fundamentalmente em primeira pessoa do singular ou do plural, quando quem conta a história integra o universo representado, ou em terceira pessoa, quando a narrativa é conduzida por uma entidade situada fora do plano da ação.

Quando a opção recai sobre o foco narrativo em primeira pessoa, estabelece-se o que a teoria define como narrador-personagem. Nesse arranjo, o relato é construído sob um ponto de vista essencialmente subjetivo, limitado às experiências, às memórias e aos sentidos daquele que fala. O narrador pode figurar como o protagonista do enredo, oferecendo uma visão interna e apaixonada dos fatos. Um exemplo clássico dessa modalidade na literatura brasileira encontra-se em Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Toda a obra é constituída pelo monólogo de Riobaldo, um ex-jagunço que rememora suas travessias pelo sertão, suas dúvidas metafísicas e seu amor por Diadorim. A visão do leitor sobre os eventos e sobre os outros integrantes da trama fica restrita ao que o próprio Riobaldo decide expor, recordar ou reinterpretar.

Outro marco fundamental do foco narrativo em primeira pessoa no Brasil é o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, escrito por Machado de Assis. Nessa obra, o protagonista-narrador atinge um estatuto singular ao declarar-se um defunto autor, alguém que escreve a partir do além. Tal posição concede a Brás Cubas a liberdade de narrar sem as amarras sociais da hipocrisia, expondo suas próprias efemeridades e as mazelas da elite do seu tempo. Contudo, precisamente por narrar em primeira pessoa, seu relato é marcado pelo egoísmo e pela parcialidade, exigindo do leitor uma postura crítica constante.

Ainda no âmbito da primeira pessoa, existe a figura do narrador-testemunha. Trata-se do personagem secundário que ocupa uma posição periférica no enredo, vivenciando a história sem desempenhar o papel central, mas registrando a trajetória do protagonista. O exemplo universal desse foco narrativo é o Doutor Watson nas obras de Sir Arthur Conan Doyle, como As Aventuras de Sherlock Holmes. Watson relata os feitos e o método dedutivo de Holmes a partir de uma perspectiva externa e admirada, criando uma distância reflexiva que intensifica o mistério para o leitor. No contexto nacional, Machado de Assis volta a empregar essa técnica no romance Memorial de Aires, estruturado como o diário de um conselheiro aposentado que observa e comenta a vida de um jovem casal.

Por outro lado, quando o relato adota a terceira pessoa, o foco narrativo desloca-se para fora do plano dos acontecimentos diretos. O exemplo mais tradicional dessa categoria é o narrador onisciente. Este narrador tem o privilégio da visão totalitária: ele transita livremente pelo tempo e pelo espaço, conhece o passado, o presente e o futuro, além de devassar os pensamentos, os desejos e as angústias mais íntimas de todas as personagens. Em O Cortiço, romance naturalista de Aluísio Azevedo, o foco narrativo em terceira pessoa opera com um distanciamento analítico, descrevendo com precisão quase científica o comportamento coletivo dos moradores da habitação social e a influência do meio sobre o indivíduo.

A onisciência, no entanto, pode assumir diferentes matizes conforme o grau de intervenção da voz que narra. Fala-se em narrador intruso quando a entidade que conduz a narrativa não se limita a expor os fatos, mas interrompe o fluxo do relato para emitir julgamentos de valor, filosofar sobre a natureza humana, dialogar diretamente com o leitor ou fazer comentários irônicos sobre os rumos da trama. Essa intrusão destrói a ilusão de realidade e relembra o leitor da natureza artificial daquela construção discursiva. Por oposição, o narrador neutro ou objetivo busca manter uma postura de aparente imparcialidade, abstendo-se de fazer comentários teóricos ou morais sobre a conduta das personagens.

A evolução da literatura moderna no século XX trouxe uma refinação extraordinária ao estudo do foco narrativo, refinamento que desafiou as fronteiras rígidas entre a primeira e a terceira pessoa. Uma das inovações mais marcantes é o recurso ao discurso indireto livre. Por meio dessa técnica, a voz do narrador em terceira pessoa funde-se de modo sutil com o fluxo de pensamentos da personagem, sem a necessidade de travessões ou verbos de elocução. O leitor é imerso na psique da figura ficcional sem que o foco narrativo mude formalmente de pessoa gramatical. É o que se observa na prosa de Graciliano Ramos em Vidas Secas, onde o narrador em terceira pessoa adota o vocabulário restrito, a dureza e o universo mental de Fabiano e de Sinhá Vitória, revelando a penúria existencial que acompanha a seca sertaneja.

Ademais, certas narrativas contemporâneas optam por alterar o foco narrativo ao longo da obra, criando estruturas polifônicas ou compostas. Em Terra Sonâmbula, do escritor moçambicano Mia Couto, a arquitetura do texto alterna o foco em terceira pessoa, que acompanha as deslocações do velho Tuahir e do menino Muidinga por uma paisagem devastada pela guerra, com o foco em primeira pessoa presente nos cadernos de Kindzu, lidos pelas personagens. Essa hibridez amplia as camadas de interpretação e demonstra que a escolha do ponto de vista não é mero adorno formal, mas a fundação sobre a qual todo o sentido literário é erguido.

Referências Bibliográficas

AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. 1. ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2016.

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ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. 1. ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2022.

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CARVALHO, Alfredo Leme Coelho de. Foco narrativo e fluxo da consciência: Questões de teoria literária. 1. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2012.

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COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

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DOYLE, Arthur Conan. As Aventuras de Sherlock Holmes. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

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GENETTE, Gérard. Narrative Discourse: An Essay in Method. Ithaca: Cornell University Press, 1983.

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RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 1. ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2024.

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ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 22. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

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TOLSTOI, Liev. A Morte de Ivan Ilitch. Tradução de Boris Schnaiderman. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009.

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agosto 08, 2026

Quem é Aracne na Mitologia Grega?

Aracne era uma jovem mortal da Lídia, de origem humilde, filha de Hímon de Colofão, um famoso tintureiro de púrpura, mas dotada de uma habilidade incomparável na arte da tecelagem e da fiação. Suas obras eram de tamanha beleza e delicadeza que até as ninfas dos bosques abandonavam suas atividades para admirá-la no trabalho.

A atração de tamanha perfeição levou as pessoas a afirmarem que Aracne certamente havia sido aluna de Atena, a deusa tutora das technai (artes e ofícios). Longe de aceitar o elogio, Aracne reagiu com desprezo: negou ter recebido qualquer lição divina e desafiou abertamente a própria Atena para uma competição, alegando ser superior à patrona da tecelagem.

Atena, adotando inicialmente a postura de conselheira, disfarçou-se como uma velhinha e visitou o ateliê da jovem. Aconselhou-a a buscar a glória apenas entre os mortais e a implorar o perdão da deusa pela soberba. Aracne rejeitou o conselho com zombaria e reiterou o desafio. Diante da recusa, Atena desfez a ilusão, revelando sua majestade divina, e o duelo de teares teve início.

O Contraste das Tapeçarias

A disputa expressou-se na linguagem simbólica das próprias peças tecidas:

  • A Tapeçaria de Atena: A deusa teceu no centro o apogeu da ordem olímpica, a cena de sua vitória contra Posídon pelo domínio de Atenas. Nas quatro extremidades, como aviso velado, retratou mortais desobedientes que ousaram desafiar os deuses e acabaram transformados em montanhas ou animais. O trabalho exaltava a supremacia e a justiça divina.

  • A Tapeçaria de Aracne: Em flagrante contraponto, Aracne bordou com perfeição hiper-realista os abusos e enganos cometidos pelos deuses contra mortais, enfatizando as metamorfoses sexuais de Zeus e Posídon (como a sedução de Europa na forma de touro e o estupro de Leda como cisne). O painel era uma denúncia explícita da imoralidade e da tirania do Olimpo.

Ao examinar a peça de Aracne, Atena constatou duas verdades insuportáveis: a obra da mortal era impecável, sem uma única falha técnica, e seu conteúdo era uma afronta direta à honra dos deuses. Consumida pela fúria, Atena rasgou o tecido de Aracne e a golpeou repetidamente com a lançadeira do tear. Tomada pela vergonha e pelo pavor, a jovem tentou se enforcar com uma corda. Atena, impedindo sua morte imediata para perpetuar a punição, borrifou-a com os sucos da erva de Hécate, transformando-a na primeira aranha:

"Viverás, mas pendurada para sempre, perversa, e que o mesmo castigo alcance a tua linhagem até a mais distante posteridade."

Significados Simbólicos na Grécia Antiga

O mito opera em múltiplas camadas de leitura cultural, filosófica e social do mundo greco-romano:

1. A Punição da Hýbris (A Arrogância Trágica)

No coração do pensamento grego estava a noção de limite. A hýbris, a presunção de um mortal que ultrapassa sua condição humana e se equipara aos deuses, é a maior das transgressões morais. Ao declarar-se autossuficiente e recusar reconhecer a inspiração divina em seu dom, Aracne rompeu a ordem cosmológica (Kosmos). Sua metamorfose em aranha rebaixa a tecelã, que buscava a glória suprema, ao nível do mais rasteiro e insetívoro dos animais, forçada a tecer eternamente teias que são varridas pelos humanos.

2. A Tensão entre Autoridade e Denúncia Política

A obra de Aracne é uma das manifestações mais contundentes da arte como protesto. Enquanto o artefato de Atena serve ao discurso institucional, mostrando a ordem divina que pune os rebeldes, a tela de Aracne desconstrói essa narrativa ao expor o arbítrio dos poderosos. Para os leitores da Antiguidade (e especialmente na releitura de Ovídio no Império Romano), a destruição do tecido de Aracne simboliza como a autoridade estabelecida muitas vezes silencia a verdade incômoda por meio da força bruta.

3. O Dom Humano versus a Tutela Divina

O mito reflete o debate sobre o estatuto da technê (a técnica/arte humana). Por um lado, reafirma que o conhecimento e a habilidade pertencem originariamente ao reino dos deuses e demandam piedade; por outro, reconhece a capacidade perturbadora da genialidade mortal em atingir o patamar da perfeição, gerando inveja até mesmo no plano divino.

Aprenda mais sobre esse mito lendo o seguinte livro

Capa do livro Nome do Livro

Metamorfoses

por Ovídio

📖 Páginas: 472 🏢 Editora: Penguin-Companhia

Obra-prima sem igual no cânone, Metamorfoses impressiona pela sua vastidão ao repassar centenas de mitos enquanto passeia por diferentes estilos, tendo como fio condutor justamente o fato de que na vida ― ou na mitologia ― nada é estável, tudo está em perpétua mutação.

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Breve resenha crítica do livro Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado

Publicado em 1966, Dona Flor e Seus Dois Maridos está inserido na fase de maturidade de Jorge Amado (1912-2001), momento em que o romancista baiano se distanciou do tom panfletário do romance de trinta e do realismo socialista inicial para consolidar uma estética mais centrada no lirismo, no pitoresco e no realismo mágico urbano. Ambientado na Salvador dos anos 1940, o livro reflete um período de transição socioeconômica e cultural no Brasil, que une a efervescência popular, a religiosidade sincrética e a afirmação de uma identidade nacional costurada pelo cotidiano das classes populares. A trajetória de Floripides Paiva, a Dona Flor, é o eixo em redor do qual o autor articula os dilemas entre o dever social e o desejo individual.

Nesta arquitetura romanesca, a diegese desdobra-se a partir de uma focalização heterodiegética de terceira pessoa. O narrador, contudo, recusa o distanciamento olímpico tradicional; comporta-se como um cronista das ruas baianas, integrando o ecossistema do romance ao dirigir-se ao leitor com cumplicidade, ironia e leveza. Esse foco narrativo onisciente e seletivo organiza a temporalidade diegética em ritmo pausado, intercalando o tempo cronológico com digressões anacrônicas que reconstroem o passado dos personagens e os hábitos da comunidade. As esferas de ação concentram-se na trinca protagonista: Vadinho, a corporificação do dionísiaco, do jogo e da transgressão; Dr. Teodoro Madureira, o arquétipo do apolíneo, da ordem, do método e da estabilidade burguesa; e Flor, que habita a zona de tensão entre essas duas forças antagônicas.

Sob a perspectiva dos aspectos estéticos e estilísticos, Amado vale-se de uma prosa marcada pelo sensorialismo e pela oralidade incorporada à norma culta. Recursos como a sinestesia e a enumeração caótica surgem com frequência nas sequências dedicadas à culinária, onde as receitas de comida baiana funcionam como metáfora da mescla cultural e do apelo carnal, e no uso constante de expressões cotidianas. O realismo mágico manifesta-se não como ruptura com o mundo ordinário, mas como extensão natural da cosmovisão soteropolitana, na qual a fronteira entre o plano terreno e o transcendental é porosa. A verossimilhança interna da obra constrói-se justamente nessa aceitação orgânica do sobrenatural, sustentada pela presença do candomblé e pelas crenças populares que legitimam a coexistência dos mundos.

A densidade dramática do romance apoia-se na construção do pathos da protagonista. Após a morte prematura de Vadinho durante o Carnaval, evento que inaugura o conflito central, Flor vivencia o luto, a negação do desejo e o posterior recasamento com o respeitável farmacéutico Teodoro. Se a nova união garante a respeitabilidade social e a segurança econômica que a sociedade patriarcal exigia de uma mulher viúva, também revela a privação do ímpeto erótico. A crise psicológica da personagem intensifica-se à medida que a memória do primeiro marido deixa de ser apenas uma lembrança dolorosa para se materializar em presença intangível, exigindo dela uma negociação interior entre a convenção moralista da pequena burguesia e as demandas inegociáveis do próprio corpo.

Dona Flor parece encenar um ponto de convergência de dois universos complementares que a crítica tradicional frequentemente insistia em separar, representadas por Jorge Amado sob a forma de uma alegoria da própria identidade brasileira, que oscila entre a disciplina pragmática e a celebração festiva. A viúva, em sua busca por plenitude, não escolhe entre a segurança do lar e a transgressão do desejo, mas reconfigura as normas da própria realidade para acomodar ambas as forças, revelando a capacidade do célebre romancista de transformar o cotidiano soteropolitano em uma reflexão universal sobre a liberdade individual e a complexidade do afeto.

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Capa do livro Nome do Livro

Dona flor e seus dois maridos

por Jorge Amado

📖 Páginas: 488 🏢 Editora: Companhia das Letras Minha Avaliação: 4.8/5

Um dos romances mais populares de Jorge Amado, levado com êxito ao cinema, ao teatro e à televisão, Dona Flor e seus dois maridos conta a história de Florípedes Paiva, que conhece em seus dois casamentos a dupla face do amor: com o boêmio Vadinho, Flor vive a paixão avassaladora, o erotismo febril, o ciúme que corrói. Com o farmacêutico Teodoro, com quem se casa depois da morte do primeiro marido, encontra a paz doméstica, a segurança material, o amor metódico. Um dia, porém, Vadinho retorna sob a forma de um fantasma capaz de proporcionar de novo à protagonista o êxtase dos embates eróticos.

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