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O que significa COMPLEXO DE CASTRAÇÃO para a Psicanálise?

A angústia de castração ocupa um lugar central na metapsicologia freudiana e nas elaborações posteriores da psicanálise, especialmente em Lacan. Longe de se reduzir a um “medo de mutilação” em sentido estritamente corporal, ela remete a uma experiência estrutural de perda, de ameaça dirigida ao estatuto fálico do sujeito, articulando-se à diferença sexual, ao complexo de Édipo, à constituição do supereu e à própria entrada na ordem simbólica. Falar em angústia de castração, portanto, implica manter a precisão da terminologia psicanalítica: falo, falta, objeto, desejo, lei, gozo, significante, não como metáforas vagas, mas como operadores conceituais rigorosos.

Freud introduz o complexo de castração no contexto de sua teoria da sexualidade infantil, especialmente a partir dos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) e dos textos sobre o complexo de Édipo e a diferença sexual, como “A organização genital infantil” (1923) e “Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos” (1925). A angústia de castração aparece, então, como uma forma específica de angústia, ligada à ameaça de perda do pênis para o menino e à constatação da falta de pênis na menina, com consequências distintas para a posição subjetiva de cada um. Mais tarde, em “Inibição, sintoma e angústia” (1926), Freud reformula a teoria da angústia, articulando-a ao eu e à função de sinal, o que permite situar a angústia de castração como um operador decisivo na economia defensiva do sujeito.

Lacan, por sua vez, ao retomar Freud, desloca o acento da castração do plano anatômico para o registro simbólico, introduzindo a noção de falo como significante privilegiado da falta no Outro. A angústia de castração deixa de ser pensada apenas como medo de perda de um órgão e passa a ser compreendida como angústia diante da perda de um lugar fálico, de um modo de se situar em relação ao desejo do Outro. Nos seminários sobre a angústia (notadamente o Seminário 10, “A angústia”, 1962‑63) e nos textos sobre a significação do falo (“A significação do falo”, 1958), Lacan radicaliza a leitura freudiana, mostrando que a castração é condição do desejo e que a angústia surge precisamente quando essa operação de perda não se inscreve ou vacila.

Angústia, castração e complexo de Édipo em Freud

Para Freud, a angústia de castração está intrinsecamente ligada ao complexo de Édipo. No menino, o Édipo se organiza em torno do desejo pela mãe e da rivalidade com o pai, que é percebido como aquele que detém o poder e a autoridade. A ameaça de castração, formulada ou suposta na figura paterna, funciona como o fator que leva o menino a renunciar aos desejos incestuosos e a identificar-se com o pai. A angústia de castração, nesse sentido, é o afeto que acompanha a percepção de que o desejo pela mãe tem um preço: a perda do pênis, isto é, a perda do órgão que, para o menino, condensa o valor fálico.

Freud descreve esse processo de forma exemplar em “Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos” (1925). O menino, ao constatar a ausência de pênis na menina, conclui que ela foi castrada e passa a temer o mesmo destino para si. A ameaça de castração, muitas vezes veiculada em proibições parentais ligadas à masturbação infantil, encontra aí um suporte imaginário: o corpo da menina testemunha, para o menino, a realidade da castração. A angústia de castração é, então, a resposta afetiva à possibilidade de que o pai, ou a autoridade que o representa, execute a ameaça.

No caso da menina, a situação é mais complexa. Freud insiste que a menina não experimenta a angústia de castração nos mesmos termos que o menino, pois ela não teme perder o pênis, mas constata que não o possui. Essa constatação dá origem ao que Freud chama de “inveja do pênis” e reorganiza o Édipo feminino: a menina se afasta da mãe, culpabilizada por não lhe ter dado o pênis, e se volta para o pai, que passa a ser o objeto de amor e a figura que detém o falo. A castração, aqui, não é vivida como ameaça, mas como fato consumado, o que não impede que a lógica fálica organize também a posição feminina, ainda que de modo distinto.

A angústia de castração, portanto, não é um fenômeno isolado, mas um momento decisivo na travessia edípica. Ela marca o ponto em que o sujeito se depara com a lei da proibição do incesto e com a necessidade de renunciar a certas satisfações pulsionais. Ao mesmo tempo, ela é o motor da formação do supereu: a internalização da autoridade paterna e das proibições que ela encarna é inseparável da experiência da castração. Em “O ego e o id” (1923), Freud mostra como o supereu se constitui a partir da identificação com o pai, identificação que só se torna possível após a renúncia edípica, isto é, após a submissão à castração.

Diferença sexual, falo e lógica da falta

A teoria freudiana da angústia de castração está ancorada na diferença anatômica entre os sexos, mas não se reduz a ela. Desde cedo, Freud percebe que o pênis, na criança, adquire um valor que ultrapassa o órgão em sua materialidade. Ele se torna o representante de um poder, de um prestígio, de um lugar privilegiado em relação ao amor e ao desejo do Outro. É nesse sentido que se pode falar em falo, ainda que Freud não sistematize o conceito como Lacan o fará mais tarde.

A diferença sexual, para Freud, é inicialmente apreendida pela criança em termos de presença ou ausência de pênis. Essa oposição binária organiza as primeiras teorizações infantis sobre a sexualidade e a origem dos bebês. A criança, ao comparar os corpos, constrói hipóteses sobre o que aconteceu com o órgão ausente: ele foi cortado, arrancado, punido. A castração, assim, é primeiramente uma teoria infantil, uma construção fantasmática que tenta dar conta da diferença sexual. A angústia de castração é o correlato afetivo dessa teoria: se o outro foi castrado, eu também posso ser.

Lacan retoma essa problemática deslocando o foco da anatomia para a estrutura simbólica. Em “A significação do falo” (1958), ele afirma que o falo não é o órgão, mas um significante, o significante do desejo do Outro. O que está em jogo na castração não é a perda real do órgão, mas a perda do lugar de objeto privilegiado do desejo do Outro. A criança, ao entrar na linguagem e na ordem simbólica, é confrontada com a falta no Outro, com o fato de que o Outro não é completo, não possui o significante último que garantiria a consistência do sentido. O falo, como significante, vem justamente marcar essa falta, funcionando como operador da castração simbólica.

Nessa perspectiva, a diferença sexual não se reduz à oposição anatômica, mas se articula à posição que o sujeito ocupa em relação ao falo: ter ou ser o falo, na fórmula lacaniana. A posição masculina se organiza em torno da pretensão de ter o falo, isto é, de se apresentar como aquele que detém o significante do desejo. A posição feminina, por sua vez, é pensada em termos de ser o falo, de encarnar para o Outro o objeto que supostamente completaria sua falta. Em ambos os casos, a castração é a operação que impede a realização dessa completude: ninguém tem o falo de forma plena, ninguém é o falo de maneira definitiva. A angústia de castração emerge quando essa impossibilidade estrutural se torna patente.

Angústia de castração, sinal de angústia e defesas do eu

Em “Inibição, sintoma e angústia” (1926), Freud reformula sua teoria da angústia, deslocando o acento da ideia de angústia como transformação direta da libido para a concepção de angústia como sinal. A angústia deixa de ser apenas o resultado de uma acumulação de excitação sexual não descarregada e passa a ser entendida como um aviso do eu diante de um perigo. Esse perigo pode ser externo (ameaça real), pulsional (irrupção de uma exigência pulsional que ameaça romper a repressão) ou ligado à castração (perda de amor, perda do objeto, perda do amor do supereu).

A angústia de castração, nesse contexto, é uma forma específica de sinal de angústia. Ela indica ao eu que uma determinada satisfação pulsional (por exemplo, o desejo incestuoso) implica o risco de perda do pênis, da integridade corporal, do amor do Outro ou da autoestima. O eu, diante desse sinal, mobiliza mecanismos de defesa: repressão, formação de sintoma, recalcamento, deslocamento, entre outros. A angústia de castração, portanto, não é apenas um afeto paralisante, mas um operador dinâmico que organiza a economia defensiva do sujeito.

Freud mostra, por exemplo, como certas fobias infantis podem ser compreendidas como formações substitutivas da angústia de castração. O medo de um animal (cavalo, cachorro, etc.) pode encobrir o medo do pai castrador, deslocando a angústia de castração para um objeto externo. O caso do pequeno Hans é paradigmático: a fobia de cavalos é interpretada por Freud como uma forma de lidar com a angústia de castração ligada ao pai e ao desejo pela mãe. O sintoma fóbico, assim, é uma solução de compromisso que permite ao sujeito evitar o confronto direto com a castração, ao preço de uma limitação de sua liberdade.

A angústia de castração também está na base de muitas formações obsessivas. O obsessivo, frequentemente, tenta evitar a castração por meio de rituais, pensamentos compulsivos, dúvidas intermináveis. Ele busca garantir, por meio de operações simbólicas e imaginárias, que a perda não ocorra, que o falo seja preservado. No entanto, essa tentativa de escapar à castração acaba por aprisioná-lo em uma rede de obrigações e proibições autoimpostas, que testemunham justamente a eficácia da castração simbólica. A angústia, nesse caso, aparece tanto como sinal de perigo quanto como efeito da impossibilidade de controlar totalmente a perda.

Releituras lacanianas da castração e da angústia

Lacan dedica um seminário inteiro à angústia (Seminário 10, 1962‑63), no qual retoma e radicaliza a teoria freudiana. Uma de suas teses centrais é que a angústia não é sem objeto. Contra a ideia de uma angústia “sem objeto” ou “flutuante”, Lacan afirma que a angústia está sempre referida a um objeto muito preciso: o objeto a, objeto causa do desejo. A angústia surge quando o objeto a se aproxima demais, quando a distância que o desejo mantém em relação a esse objeto é ameaçada. Em outras palavras, a angústia aparece quando o sujeito é confrontado com algo do real que escapa à simbolização.

A castração, nesse contexto, é pensada como operação simbólica que introduz uma falta estruturante. Ela é condição para que o desejo se organize em torno de um objeto que nunca é plenamente possuído. Quando a castração falha, quando a falta não se inscreve, o sujeito pode ser invadido por fenômenos de angústia que testemunham a irrupção do real sem mediação simbólica. A angústia de castração, então, não é apenas medo de perder algo, mas também medo de não perder, isto é, de ficar colado ao objeto, de ser tomado por um gozo sem limite.

Lacan também mostra que a angústia de castração está ligada à função do falo como significante da falta no Outro. Quando o sujeito se depara com a possibilidade de que o Outro não esteja castrado, isto é, de que o Outro seja completo, sem falta, a angústia se intensifica. Um Outro sem falta é um Outro absoluto, tirânico, que não deixa espaço para o desejo do sujeito. A castração do Outro, ao contrário, é o que garante que o desejo possa circular, que haja lugar para o sujeito. A angústia de castração, assim, pode ser lida como angústia diante da oscilação entre um Outro supostamente todo‑poderoso e um Outro barrado, castrado.

Nos desenvolvimentos posteriores, especialmente no Seminário 17 (“O avesso da psicanálise”, 1969‑70), Lacan articula a castração à lógica dos discursos e à função do mais‑de‑gozar. A castração é o que limita o gozo, o que impede que o sujeito se confunda com o objeto de gozo do Outro. A angústia aparece quando essa limitação vacila, quando o sujeito se vê reduzido à condição de objeto de gozo, sem a mediação do significante. A angústia de castração, então, é inseparável da angústia diante do gozo do Outro, diante da possibilidade de ser capturado por esse gozo.

Implicações clínicas da angústia de castração

Do ponto de vista clínico, a angústia de castração se manifesta de múltiplas formas: fobias, inibições sexuais, sintomas obsessivos, dificuldades de assumir posições de desejo, impasses na relação com a diferença sexual, entre outras. O analista, ao escutar o discurso do analisante, encontra frequentemente referências veladas à castração: fantasias de mutilação, sonhos de perda de dentes ou de partes do corpo, medos difusos ligados à sexualidade, sentimentos de humilhação ou desvalorização quando o sujeito se percebe “sem” algo que imagina que o outro possui.

Na clínica com homens, é comum que a angústia de castração se articule à dificuldade de sustentar uma posição viril que não seja imaginariamente garantida pelo pênis ou por atributos fálicos (sucesso profissional, poder, prestígio). A impotência sexual, por exemplo, pode ser lida como sintoma que condensa a angústia de castração: o sujeito teme não estar à altura do ideal fálico e, ao mesmo tempo, organiza seu gozo em torno dessa falha. A análise, nesse caso, não visa restaurar uma suposta potência perdida, mas permitir que o sujeito se desidentifique de um ideal fálico tirânico e encontre um modo singular de se situar em relação ao desejo e ao gozo.

Na clínica com mulheres, a angústia de castração pode aparecer sob a forma de uma reivindicação fálica insistente, de uma demanda de reconhecimento que visa tamponar a falta. Freud já havia notado, em “Análise terminável e interminável” (1937), que certas pacientes mantinham, ao final da análise, uma reivindicação fálica intransponível, o que o levou a falar de um “rochedo da castração”. Lacan retoma essa formulação para pensar os limites da análise quando o sujeito se fixa em uma posição de recusa da castração, seja pela via da reivindicação de ter o falo, seja pela via da recusa de renunciar a ser o falo para o Outro.

A angústia de castração também se faz sentir na transferência. O analista, ao ocupar o lugar de sujeito suposto saber, pode ser investido como aquele que detém o falo, aquele que teria a resposta última sobre o desejo do sujeito. A direção da cura, porém, implica justamente desinvestir esse lugar, fazer cair o suposto falo do analista, para que o sujeito possa confrontar-se com a própria falta e com a castração do Outro. Não é por acaso que Freud, em “Análise terminável e interminável”, situa a reivindicação fálica como um limite da análise: trata-se do ponto em que o sujeito resiste a reconhecer a castração, exigindo do analista um complemento impossível.

Por outro lado, a angústia de castração pode ser um operador clínico precioso. Quando ela emerge na sessão, seja sob a forma de um afeto intenso, seja por meio de formações do inconsciente, ela indica que algo da ordem da castração está em jogo, que uma certa defesa está vacilando. O manejo da transferência, nesse momento, exige que o analista não se apresente como aquele que poderia evitar a castração, mas tampouco como um agente de castração brutal. Trata‑se de sustentar um lugar que permita ao sujeito atravessar sua angústia, isto é, reconhecer a castração como condição de seu desejo, e não apenas como ameaça de perda.

Em termos mais amplos, a angústia de castração remete à relação do sujeito com a lei e com a cultura. A castração é a operação que introduz o sujeito na ordem simbólica, submetendo‑o a uma série de proibições e renúncias pulsionais. A angústia de castração, então, é também angústia diante da exigência de renunciar a certas formas de gozo em nome da vida em comum. Em contextos socioculturais em que as referências simbólicas se fragilizam, em que a função paterna é questionada ou esvaziada, a angústia de castração pode assumir formas novas, menos localizáveis, mas não menos intensas: angústias difusas, pânicos, sensação de desamparo diante de um Outro percebido ora como impotente, ora como excessivamente intrusivo.

A psicanálise, ao insistir na centralidade da castração, não propõe um retorno nostálgico a formas rígidas de autoridade, mas aponta para a necessidade de reconhecer a falta como estruturante. A angústia de castração, longe de ser um resíduo arcaico a ser eliminado, é um índice da relação do sujeito com essa falta. A clínica mostra que, quando a castração é recusada, o sujeito pode ser capturado por formas de gozo mortíferas; quando ela é reconhecida, abre‑se a possibilidade de um desejo menos submetido ao ideal fálico e mais afinado com a singularidade de cada um.

Referências bibliográficas

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FREUD, Sigmund (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972, v. 7, pp. 121-237. 

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Lacan, J. (1958). A significação do falo. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1962‑1963). O Seminário, livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Zahar.

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SILVA. F. L: O pudor da Esfinge ou, simplesmente, mais uma divida/dúvida sobre as mulheres? um estudo da perversão feminina na literatura de Rinaldo de Fernandes. 2025. 324 f. Tese (Doutorado em Letras) — Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, 2025. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/37167. Acesso em: 01 jan. 2026.

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O que é FORMAÇÃO DE COMPROMISSO para a Psicanálise?

A psicanálise, desde o seu nascimento com Sigmund Freud, propõe uma visão do psiquismo humano como um campo de forças em constante conflito. No centro dessa dinâmica, surge um conceito fundamental para compreender por que agimos de certas formas, por que esquecemos o que não deveríamos ou por que desenvolvemos sintomas: a formação de compromisso (em alemão, Kompromissbildung).

Longe de ser uma simples "falha" do sistema, a formação de compromisso é uma solução criativa, ainda que muitas vezes dolorosa, que o inconsciente encontra para lidar com exigências contraditórias. Para entender esse mecanismo, precisamos mergulhar na ideia de que nossa mente não é uma unidade homogênea, mas um território dividido entre desejos pulsionais que buscam satisfação imediata e agências internas (como o Superego) ou externas (a realidade) que impõem limites e proibições.

A Gênese do Conflito e a Necessidade de Mediação

A formação de compromisso não ocorre no vácuo; ela é a resposta direta ao conflito psíquico. Na metapsicologia freudiana, o aparelho mental é regido pelo princípio do prazer, mas constantemente confrontado pelo princípio da realidade. Imagine uma pulsão, um impulso sexual ou agressivo, que nasce no Id e busca representação e descarga. Se essa pulsão entra em choque com as exigências morais do indivíduo ou com a necessidade de autopreservação, o Eu (Ego) se vê em um dilema.

Se o Eu simplesmente permitisse a satisfação total da pulsão proibida, o sujeito experimentaria uma angústia insuportável ou punição social. Por outro lado, se o Eu tentasse apenas suprimir completamente o desejo, a pressão interna continuaria a crescer, gerando mal-estar. A formação de compromisso surge, então, como uma transação. É como um contrato jurídico assinado sob protesto por ambas as partes: o desejo encontra uma via de expressão, mas essa via é tão distorcida ou disfarçada que ele se torna reconhecível apenas sob a forma de um sintoma, um sonho ou um ato falho.

Nesse processo, ocorre uma "deformação" da intenção original. O compromisso é a prova de que o recalcamento (repressão) não foi totalmente bem-sucedido. Se tivesse sido, o desejo permaneceria no inconsciente sem perturbar a consciência. Como o recalcamento falhou parcialmente, o desejo "retorna", mas precisa pagar um pedágio para atravessar a fronteira da consciência. Esse pedágio é a sua própria alteração.

O Sintoma como Expressão de Duas Vontades

O exemplo mais clássico de formação de compromisso é o sintoma neurótico. Para a psicanálise, o sintoma não é um erro biológico, mas um fenômeno carregado de sentido. Ele é uma estrutura bifronte: olha para o desejo e para a defesa simultaneamente.

Tomemos, por exemplo, uma pessoa que desenvolve uma lavagem obsessiva das mãos. Por um lado, o ato de lavar pode representar uma defesa contra um impulso "sujo" (como um desejo agressivo ou sexual inconsciente), funcionando como uma purificação. Por outro lado, o próprio ato de dedicar horas a essa atividade acaba por fixar a atenção do indivíduo na ideia da sujeira, permitindo que o desejo proibido permaneça presente, ainda que de forma invertida.

O sintoma é "econômico" porque permite que o sujeito descarregue parte da tensão pulsional sem ter que admitir para si mesmo o que realmente deseja. Freud afirmava que o sintoma é um substituto para uma satisfação pulsional que não pôde ocorrer. No entanto, o preço desse compromisso é o sofrimento. O sujeito se queixa do sintoma porque ele é estranho ao Eu (egodistônico), mas ele se apega ao sintoma porque, no fundo, ele é a única forma que o sujeito encontrou para não desmoronar diante do conflito.

Essa dualidade explica por que é tão difícil abandonar certos comportamentos autodestrutivos. Há um "ganho primário" no sintoma: a redução da angústia através da formação de um compromisso que, embora precário, mantém o equilíbrio psíquico possível naquele momento.

Manifestações na Vida Cotidiana: Sonhos e Atos Falhos

A formação de compromisso não se restringe à patologia; ela é constituinte do que chamamos de "normalidade". Freud demonstrou isso magistralmente em suas obras sobre a psicopatologia da vida cotidiana e na interpretação dos sonhos.

No sonho, a formação de compromisso é evidente na distinção entre o conteúdo manifesto (o que lembramos ao acordar) e os pensamentos latentes (o verdadeiro significado inconsciente). O desejo inconsciente quer se realizar durante o sono, mas a "censura onírica" ainda está operando. O resultado é um compromisso: o sonho se torna uma narrativa estranha, fragmentada e simbólica. O desejo é satisfeito de forma alucinatória, mas de tal maneira que o sonhador não reconheça o conteúdo proibido e possa continuar dormindo. Se o compromisso falha e o desejo aparece de forma muito nua, o sujeito acorda em angústia (o pesadelo).

Da mesma forma, os atos falhos (lapsos de linguagem, esquecimentos de nomes próprios, perda de objetos) são formações de compromisso perfeitas. Quando você "troca" o nome do seu atual parceiro pelo do ex, não é um simples erro de memória. É o resultado de um conflito entre a intenção consciente de falar o nome correto e um desejo inconsciente (ou pensamento perturbador) que interfere na fala. O compromisso aqui é a própria troca: a fala ocorre, mas a "verdade" inconsciente do desejo se imiscui na frase, deformando-a.

Essas pequenas falhas do dia a dia mostram que o Eu não é "senhor em sua própria casa". Estamos constantemente negociando com nossas sombras, produzindo esses pequenos compromissos que permitem que a vida social e consciente continue, enquanto o inconsciente envia seus recados codificados.

O Papel do Recalcamento e o Retorno do Reprimido

Para compreender profundamente a formação de compromisso, é necessário entender a dinâmica entre o recalcamento e o retorno do recalcado. O recalcamento é a operação pela qual o sujeito tenta repelir ou manter no inconsciente representações (pensamentos, imagens, lembranças) ligadas a uma pulsão. No entanto, o recalcamento não destrói a energia da pulsão; ele apenas a priva de acesso à consciência.

A energia psíquica (libido) é indestrutível. Se ela é bloqueada em um caminho, ela buscará outro através do processo de deslocamento e condensação. A formação de compromisso é justamente o ponto de encontro onde o retorno do recalcado se funde com os mecanismos de defesa do Eu.

Não há retorno do recalcado que não seja sob a forma de compromisso. Se o recalcado voltasse tal como foi banido, ele seria imediatamente identificado e rejeitado novamente. Para retornar, ele precisa de um disfarce, uma "máscara". Essa máscara é construída com elementos que sejam aceitáveis para o Eu, mas que mantenham uma conexão associativa com o desejo original.

É por isso que, na clínica psicanalítica, o analista não olha apenas para o que o paciente diz, mas para as frestas, para os duplos sentidos e para as contradições. É nessas formações de compromisso que a verdade do sujeito está escondida. O compromisso é, ao mesmo tempo, um esconderijo e um sinalizador. Ele esconde o desejo para protegê-lo da censura, mas sinaliza sua existência através da estranheza que produz no comportamento ou no pensamento.

A Dimensão Ética e Clínica da Transação Psíquica

Na prática clínica, o objetivo da psicanálise não é simplesmente "eliminar" a formação de compromisso, como se fosse possível viver uma vida sem conflitos ou sem inconsciente. O objetivo é levar o sujeito a reconhecer as partes envolvidas nesse contrato inconsciente.

Muitas vezes, o compromisso firmado na infância, que gerou um sintoma ou um traço de caráter, tornou-se anacrônico. O adulto continua operando sob uma transação que foi feita quando ele era uma criança desamparada diante de pais proibidores. Ao analisar essas formações, o sujeito pode, aos poucos, renegociar esses termos.

A "cura" em psicanálise tem menos a ver com a ausência de sintomas e mais com a capacidade do Eu de integrar o desejo de forma menos custosa. Em vez de um sintoma paralisante que serve como compromisso, o sujeito pode encontrar vias de sublimação, onde o desejo inconsciente é canalizado para atividades socialmente produtivas e criativas (arte, ciência, trabalho) sem a necessidade de autopunição.

A formação de compromisso nos ensina sobre a complexidade da liberdade humana. Mostra que nossas escolhas raramente são puras; elas são o resultado de uma diplomacia interna complexa. Reconhecer que somos feitos de compromissos é um passo essencial para a humildade psíquica. Aceitamos que nem tudo o que fazemos é fruto de nossa vontade consciente e que, por trás de nossas maiores certezas ou de nossos piores sofrimentos, existe uma negociação silenciosa tentando equilibrar o que queremos, o que podemos e o que nos é permitido ser.

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É necessário ter diploma de psicologia ou medicina para atuar como psicanalista no Brasil?

A discussão sobre quem pode atuar como psicanalista no Brasil é antiga, complexa e cercada de interpretações divergentes. Isso acontece porque a psicanálise, desde sua origem com Freud, ocupa um lugar híbrido entre ciência, filosofia, método clínico e prática cultural. Ela não se encaixa perfeitamente nas categorias tradicionais de regulamentação profissional, o que abre espaço para debates sobre sua natureza e sobre quem estaria apto a exercê-la.

No Brasil, essa discussão se intensifica porque, ao contrário de profissões como psicologia, medicina, enfermagem ou serviço social, a psicanálise não é regulamentada por lei federal. Isso significa que não existe um conselho profissional oficial, nem uma legislação que determine requisitos formais obrigatórios para o exercício da atividade. Em outras palavras: não há, no ordenamento jurídico brasileiro, uma exigência legal de diploma em psicologia ou medicina para atuar como psicanalista.

Mas isso não encerra o assunto. A ausência de regulamentação não significa ausência de critérios, e a própria tradição psicanalítica, especialmente a partir de Freud, Lacan e das grandes escolas internacionais, estabeleceu parâmetros rigorosos de formação. Assim, embora a lei não imponha requisitos, a comunidade psicanalítica séria costuma adotar padrões próprios, que incluem análise pessoal, supervisão e formação teórica.

Para compreender esse cenário de forma completa, é preciso analisar a história da psicanálise, o contexto jurídico brasileiro, as diferenças entre psicanálise e psicoterapia, e os debates éticos que envolvem a prática clínica.

A natureza da psicanálise e sua relação histórica com a formação acadêmica

A psicanálise nasceu no final do século XIX, criada por Sigmund Freud, que era médico neurologista. No entanto, desde muito cedo, Freud deixou claro que a psicanálise não deveria ser restrita a médicos. Em textos como A questão da análise leiga (1926), ele defendeu explicitamente que pessoas não médicas poderiam se tornar psicanalistas, desde que recebessem formação adequada dentro das instituições psicanalíticas.

Essa posição de Freud foi fundamental para a expansão da psicanálise no mundo. Muitos dos grandes nomes da psicanálise não eram médicos: Anna Freud era pedagoga; Melanie Klein não tinha formação universitária formal; Jacques Lacan era psiquiatra, mas muitos de seus principais discípulos vinham de áreas diversas; Donald Winnicott era pediatra, mas sua obra influenciou profundamente a psicologia; e assim por diante.

A psicanálise, portanto, consolidou-se como um campo de saber que não depende exclusivamente da formação universitária tradicional. Ela se organiza por meio de instituições próprias, que oferecem formação baseada em três pilares clássicos:

  • Análise pessoal (o futuro analista passa por sua própria análise)
  • Estudo teórico sistemático
  • Supervisão clínica

Esses elementos são considerados essenciais para a formação de um psicanalista, independentemente de sua graduação.

No Brasil, essa tradição se manteve. As principais escolas psicanalíticas, lacanianas, freudianas, kleinianas, winnicottianas, independentes, seguem esse modelo. Assim, a formação em psicanálise ocorre majoritariamente em institutos privados, e não em universidades públicas ou conselhos profissionais.

O cenário jurídico brasileiro: ausência de regulamentação e liberdade de exercício

Do ponto de vista legal, a psicanálise não é uma profissão regulamentada. Isso significa que não existe:

  • Lei federal definindo requisitos obrigatórios
  • Conselho profissional oficial
  • Registro profissional obrigatório
  • Fiscalização estatal específica

Essa ausência de regulamentação coloca a psicanálise na categoria de atividade intelectual de livre exercício, protegida pela Constituição Federal, que garante a liberdade de trabalho, ofício e profissão, exceto quando a lei exigir qualificação específica, o que não é o caso da psicanálise.

Assim, qualquer pessoa pode se formar psicanalista, desde que encontre uma instituição que ofereça formação. E, por não haver lei exigindo diploma universitário, não é obrigatório ser psicólogo ou médico.

É importante destacar que essa liberdade não significa ausência de responsabilidade. O psicanalista responde civil e criminalmente por sua prática, como qualquer profissional liberal. Além disso, instituições sérias de psicanálise mantêm critérios rigorosos de formação, mesmo sem exigência legal.

Psicanálise, psicologia e psiquiatria: diferenças fundamentais

A confusão sobre a necessidade de diploma em psicologia ou medicina surge porque muitas pessoas acreditam que psicanálise é uma forma de psicoterapia ou um ramo da psicologia. Embora existam interseções, são campos distintos.

Psicanálise não é psicologia

A psicologia é uma ciência regulamentada, com formação universitária específica e conselho profissional (CFP). O psicólogo pode atuar com diversas abordagens terapêuticas, inclusive a psicanálise, mas isso não significa que a psicanálise pertença à psicologia.

A psicanálise é um campo independente, com método próprio, linguagem própria e tradição institucional própria.

Psicanálise não é psiquiatria

A psiquiatria é uma especialidade médica. O psiquiatra pode prescrever medicamentos, diagnosticar transtornos mentais e atuar em hospitais. A psicanálise, por sua vez, não envolve prescrição de medicamentos nem diagnóstico médico.

O psicanalista não é psicólogo nem médico — a menos que tenha essas formações

Um psicanalista pode ser psicólogo, médico, filósofo, pedagogo, advogado, artista, engenheiro ou qualquer outra coisa. A formação universitária não determina sua identidade como psicanalista; o que determina é sua formação dentro da tradição psicanalítica.

A formação psicanalítica: critérios internos e debates éticos

Embora a lei não imponha requisitos, a comunidade psicanalítica séria costuma adotar padrões rigorosos. Isso é importante porque a prática psicanalítica envolve lidar com sofrimento psíquico, conflitos inconscientes e questões delicadas da subjetividade humana.

Os três pilares da formação

  1. Análise pessoal
    O futuro analista passa por sua própria análise, geralmente de longa duração. Isso é considerado indispensável para que ele compreenda seus próprios processos inconscientes e possa escutar o outro com ética e responsabilidade.

  2. Estudo teórico
    A formação inclui leitura sistemática de Freud, Lacan, Klein, Winnicott e outros autores, além de seminários, grupos de estudo e discussões clínicas.

  3. Supervisão
    O aluno atende pacientes sob supervisão de analistas experientes, discutindo casos e aprendendo a manejar a clínica.

Esses elementos são considerados mais importantes do que qualquer diploma universitário.

O debate ético

Há quem defenda que apenas psicólogos e médicos deveriam atuar como psicanalistas, argumentando que isso protegeria o público de práticas irresponsáveis. Outros defendem que restringir a psicanálise a essas profissões seria trair sua própria história e limitar sua riqueza cultural.

A posição predominante nas grandes escolas psicanalíticas é a de que a formação deve ser garantida pelas instituições psicanalíticas, e não por conselhos profissionais externos.

Conclusão: afinal, é necessário ter diploma de psicologia ou medicina?

A resposta, com base na legislação brasileira e na tradição psicanalítica, é clara:

Não, não é necessário ter diploma de psicologia ou medicina para atuar como psicanalista no Brasil.

A psicanálise é uma atividade de livre exercício, não regulamentada por lei, e sua formação ocorre em instituições próprias, que estabelecem seus critérios internos. A exigência de graduação universitária não faz parte desses critérios, embora muitas instituições recomendem que o aluno tenha formação superior, não como requisito legal, mas como base cultural.

Isso não significa que “qualquer um” possa atuar de forma responsável. A psicanálise exige estudo sério, análise pessoal profunda e supervisão contínua. A ausência de regulamentação não deve ser confundida com ausência de rigor.

Ou seja, a qualidade do trabalho psicanalítico depende menos do diploma universitário e mais da seriedade da formação, da ética do profissional e de seu compromisso com a tradição psicanalítica.

Como a formação em psicanálise contribui para a clínica de casos de transtornos de ansiedade grave?

A ansiedade grave, em suas múltiplas manifestações clínicas (ataques de pânico, fobias incapacitantes, ansiedade generalizada severa, quadros obsessivos intensos, entre outros) constitui um dos desafios mais complexos da prática clínica contemporânea. Embora a psiquiatria e as abordagens cognitivo-comportamentais tenham desenvolvido protocolos eficazes para manejo sintomático, a psicanálise oferece uma via distinta, centrada na compreensão profunda da subjetividade, dos conflitos inconscientes e das formas singulares pelas quais cada sujeito organiza sua relação com o desejo, o corpo e o outro. A formação psicanalítica, nesse contexto, não se limita a transmitir técnicas: ela transforma o olhar clínico, amplia a capacidade de escuta e sustenta uma ética que permite trabalhar com o sofrimento psíquico em sua dimensão mais radical.

A escuta psicanalítica como ferramenta para acessar a lógica singular do sintoma ansioso

A formação em psicanálise coloca a escuta no centro da prática clínica. Não se trata de ouvir apenas o conteúdo manifesto do discurso, mas de captar suas falhas, repetições, lapsos, silêncios e contradições. A ansiedade grave, frequentemente vivida pelo paciente como um fenômeno caótico e sem sentido, ganha outra dimensão quando o analista se dispõe a escutar o que nela se articula como mensagem.

A ansiedade, para a psicanálise, não é apenas um excesso fisiológico ou uma resposta desregulada do sistema nervoso. Ela é um afeto que surge quando o sujeito se confronta com algo que escapa ao controle consciente, um desejo recalcado, uma fantasia ameaçadora, uma perda simbólica, uma angústia de separação, ou mesmo a irrupção do real que não encontra representação. A formação psicanalítica prepara o clínico para reconhecer essas camadas e para não se precipitar em interpretações ou intervenções diretivas que poderiam reforçar defesas ou intensificar o sofrimento.

A escuta psicanalítica permite:

  • Identificar a função do sintoma: a ansiedade pode operar como defesa contra algo ainda mais angustiante; compreender isso evita intervenções precipitadas.
  • Acompanhar o sujeito na construção de sentido: o paciente passa a localizar a origem de seu mal-estar em sua história, em suas relações e em seus conflitos internos.
  • Criar um espaço onde o indizível pode emergir: muitas vezes, a ansiedade grave está ligada a experiências traumáticas ou a fantasias que o sujeito nunca pôde simbolizar.

Essa escuta, que exige formação rigorosa e análise pessoal, é uma das contribuições mais valiosas da psicanálise para o tratamento da ansiedade grave.

A compreensão do inconsciente e dos mecanismos de defesa na estruturação da ansiedade

A formação psicanalítica oferece ao clínico um repertório teórico robusto para compreender como a ansiedade se articula com mecanismos inconscientes. Freud já apontava que a ansiedade é um sinal de que algo recalcado ameaça retornar, e que o ego mobiliza defesas para evitar esse retorno. Em quadros graves, essas defesas podem se tornar rígidas, ineficazes ou paradoxalmente geradoras de mais ansiedade.

O analista, ao compreender esses mecanismos, pode trabalhar com eles de forma cuidadosa e estratégica. Por exemplo:

  • Recalque e retorno do recalcado: conteúdos intoleráveis são expulsos da consciência, mas retornam sob a forma de sintomas ansiosos.
  • Projeção: o sujeito atribui ao mundo externo perigos que pertencem ao seu mundo interno, gerando fobias ou medos difusos.
  • Formação reativa: comportamentos excessivamente controlados ou moralistas podem mascarar impulsos que geram ansiedade.
  • Deslocamento: a ansiedade é transferida para objetos ou situações aparentemente desconectados da causa original.
  • Clivagem e dissociação: em casos mais graves, partes da experiência psíquica são isoladas para evitar colapso emocional.

A formação psicanalítica permite ao clínico reconhecer esses movimentos sem julgá-los, compreendendo-os como tentativas do psiquismo de lidar com conflitos internos. Essa compreensão evita que o terapeuta interprete a ansiedade apenas como disfunção ou fraqueza, e permite que ele ajude o paciente a reconstruir modos mais integrados de lidar com suas emoções.

Além disso, a psicanálise oferece ferramentas para trabalhar com a transferência e a contratransferência, elementos fundamentais na clínica da ansiedade grave. Pacientes ansiosos frequentemente projetam no analista expectativas de proteção, medo de abandono, desconfiança ou idealização. A formação psicanalítica prepara o clínico para sustentar essas projeções sem agir impulsivamente, transformando-as em material de trabalho.

A ética da psicanálise como sustentação para o manejo de crises e intensidades emocionais

A ansiedade grave frequentemente se manifesta em crises intensas, ataques de pânico, sensação de despersonalização, medo de enlouquecer ou de morrer. Para o paciente, esses episódios são vividos como ameaças reais e imediatas. A formação psicanalítica oferece ao clínico uma ética que o ajuda a sustentar esses momentos sem se deixar capturar pela urgência aparente do sintoma.

Essa ética se expressa em vários aspectos:

  • Não ceder ao apelo de oferecer soluções rápidas: embora tentador, isso pode reforçar a dependência e impedir o sujeito de elaborar suas próprias respostas.
  • Manter a posição de analista mesmo diante da angústia extrema: o clínico não se torna amigo, conselheiro ou salvador; ele permanece como alguém que escuta e interpreta.
  • Respeitar o tempo do sujeito: a ansiedade grave muitas vezes está ligada a traumas ou conflitos profundos que não podem ser abordados de forma brusca.
  • Evitar interpretações invasivas: em momentos de crise, interpretações precipitadas podem aumentar a angústia.
  • Sustentar o enquadre: horários, frequência e regras do setting oferecem ao paciente uma estrutura que ajuda a conter a ansiedade.

Essa ética não é apenas um conjunto de normas; ela é resultado da própria formação do analista, que passa por sua análise pessoal e por supervisão clínica. Isso o capacita a reconhecer seus próprios limites, ansiedades e reações, evitando que interfiram no tratamento.

A formação psicanalítica como caminho para compreender a história do sujeito e sua relação com o corpo

A ansiedade grave não é apenas um fenômeno mental; ela se manifesta no corpo de forma intensa: taquicardia, sudorese, tremores, falta de ar, dores, tensões musculares, sensação de desmaio, entre outros. A psicanálise, desde Freud, reconhece que o corpo é palco de inscrições psíquicas. A formação psicanalítica permite ao clínico compreender como o corpo fala quando a palavra falha.

Essa compreensão é essencial em casos graves, pois:

  • O corpo pode expressar conflitos que o sujeito não consegue simbolizar.
  • A ansiedade pode ser uma resposta a experiências precoces de desamparo.
  • O corpo pode carregar marcas de traumas não elaborados.
  • A relação com o corpo pode estar atravessada por fantasias inconscientes de punição, controle ou ameaça.

A formação psicanalítica também prepara o clínico para trabalhar com a história do sujeito de forma não linear. Em vez de buscar causas diretas ou eventos específicos, o analista acompanha o paciente na reconstrução de sua narrativa, permitindo que ele encontre sentidos antes inacessíveis. Isso é especialmente importante na ansiedade grave, onde o sujeito muitas vezes sente que “não sabe por que está assim”.

Ao longo do processo analítico, o paciente pode:

  • Reconhecer padrões repetitivos em suas relações.
  • Identificar expectativas inconscientes que alimentam a ansiedade.
  • Compreender como experiências infantis moldaram sua forma de lidar com o mundo.
  • Construir novas formas de simbolizar o que antes era vivido apenas como ameaça corporal.

Essa reconstrução subjetiva não elimina a ansiedade de forma mágica, mas transforma sua função e reduz seu poder paralisante.

A psicanálise como espaço de elaboração e transformação subjetiva em casos de ansiedade grave

Por fim, a formação psicanalítica capacita o clínico a oferecer um espaço onde o sujeito pode transformar sua relação com a ansiedade. Em vez de tentar eliminá-la, o que muitas vezes é impossível ou contraproducente, a psicanálise busca compreender o que ela revela sobre o sujeito e como ele pode reorganizar sua vida psíquica a partir dessa compreensão.

Essa transformação ocorre de várias maneiras:

  • A ansiedade deixa de ser vivida como ameaça absoluta e passa a ser reconhecida como sinal de algo que precisa ser elaborado.
  • O sujeito aprende a nomear suas emoções, desejos e medos, reduzindo a sensação de caos interno.
  • A análise permite que o paciente se aproprie de sua história, em vez de ser dominado por ela.
  • A relação transferencial oferece um laboratório para experimentar novas formas de se relacionar com o outro.
  • O sujeito desenvolve maior tolerância à frustração, à incerteza e ao desconhecido, fatores centrais na ansiedade grave.

A formação psicanalítica, ao enfatizar a singularidade, a profundidade e a complexidade da experiência humana, oferece ao clínico ferramentas para acompanhar o paciente em um processo de transformação que vai além do alívio sintomático, permitindo que o tratamento da ansiedade grave seja não apenas um manejo de crises, mas um caminho de reconstrução subjetiva.

O que é a LEI DO PAI para a Psicanálise?

Aos falarmos em “Lei do Pai” na psicanálise, estaremos discutindo diretamente acerca da articulação entre desejo, lei e linguagem. Desde Freud, passando pela releitura estrutural de Lacan, a função paterna deixa de ser pensada como simples encarnação empírica de um genitor para se tornar um operador simbólico, um significante que organiza o campo do Outro, introduz a castração e estrutura o sujeito como efeito de linguagem. A “lei” em questão não é, portanto, um código moral ou um conjunto de normas sociológicas, mas a lei simbólica que, ao interditar, torna possível o desejo, a significação e a própria constituição do inconsciente.

Freud situa o pai no centro do Complexo de Édipo, articulando-o à interdição do incesto e à ameaça de castração. Lacan, ao retomar Freud, desloca o foco da figura empírica do pai para o Nome-do-Pai, significante que condensa a função de lei e de mediação entre o desejo da mãe e o sujeito. A Lei do Pai, nesse contexto, é inseparável da metáfora paterna, da operação pela qual o Nome-do-Pai vem substituir o significante do desejo materno, instaurando uma falta estruturante e abrindo o campo da significação. 

Ao mesmo tempo, a psicanálise contemporânea se vê diante de transformações nas formas de laço social, nas configurações familiares e nas figuras de autoridade. Isso torna ainda mais crucial distinguir, como insistem diversos autores, a função paterna enquanto operador estrutural da subjetivação, de qualquer idealização sociológica do “pai de família” ou de um modelo patriarcal específico. A Lei do Pai, em psicanálise, não é nostalgia de uma ordem perdida, mas nome de uma operação simbólica sem a qual o sujeito não se constitui como tal.

A função paterna em Freud: Édipo, lei e castração

Em Freud, a referência inaugural à Lei do Pai aparece sob a forma do mito do pai da horda primeva em Totem e tabu. O pai primevo, figura de gozo ilimitado, monopoliza as mulheres e encarna uma espécie de exceção à lei: ele pode tudo, enquanto os filhos são submetidos à interdição. A cena mítica do assassinato do pai pelos filhos, seguida pela instauração do totem e das proibições do incesto e do parricídio, condensa a passagem da violência ao direito, do gozo sem limites à lei simbólica. A Lei do Pai nasce, paradoxalmente, do crime contra o pai, e se institui como lei do totem, lei da proibição do incesto e da substituição do pai morto por um significante coletivo.

No plano da clínica, essa problemática se traduz no Complexo de Édipo. O pai é aquele que, ao intervir na relação dual mãe–criança, introduz a interdição do incesto e a ameaça de castração. A criança, que se encontra inicialmente capturada no desejo da mãe, é confrontada com um terceiro termo que limita esse gozo fusional. A ameaça de castração, longe de ser apenas um terror imaginário, é o modo pelo qual a lei se inscreve no corpo e no psiquismo, marcando a impossibilidade de uma satisfação plena e a necessidade de renúncia pulsional para a entrada na cultura.

Freud articula, assim, a função paterna à passagem do princípio de prazer ao princípio de realidade. A Lei do Pai é o que obriga o sujeito a renunciar a certas satisfações imediatas em nome de uma inserção no laço social, na linguagem, no trabalho. Mas essa renúncia não é puramente repressiva: ela é também condição para a sublimação, para a possibilidade de deslocar a energia pulsional para fins culturalmente valorizados. A lei, nesse sentido, não é apenas proibição, mas também condição de criação.

É importante notar que, já em Freud, a função do pai não se reduz à presença efetiva de um genitor. Em vários textos clínicos, Freud mostra que a eficácia da lei pode ser exercida por substitutos simbólicos: um avô, um professor, uma instituição, ou mesmo uma idealização interna. O que importa é que haja uma instância que encarne, para o sujeito, a interdição do incesto e a referência a um “terceiro” que transcende a relação dual. Essa intuição será radicalizada por Lacan, que deslocará a questão do pai para o registro do significante.

O Nome-do-Pai em Lacan: lei simbólica, metáfora paterna e foraclusão

Lacan retoma a problemática freudiana do pai a partir de uma leitura estrutural, fortemente influenciada pela linguística e pela antropologia estrutural. O ponto decisivo é a formulação do Nome-do-Pai como significante privilegiado, cuja função é articular a lei simbólica, a castração e a entrada do sujeito no campo do Outro. O pai, em Lacan, é antes de tudo um operador de linguagem: o Nome-do-Pai é o significante que representa, no Outro, a instância da lei que regula o desejo.

A metáfora paterna, tal como formalizada por Lacan, é a operação pela qual o significante do Nome-do-Pai vem substituir o significante do desejo da mãe na cadeia significante. Em termos esquemáticos, Lacan escreve:

Desejo da Mãe
———————————
Nome-do-Pai

Essa substituição metafórica produz um novo significante, que é o significante do desejo da mãe sob a égide da lei. O efeito dessa operação é duplo: por um lado, o desejo da mãe deixa de ser vivido como enigmático e ilimitado, ganhando um lugar na ordem simbólica; por outro, o sujeito é introduzido na lógica da falta, da castração, pois o Nome-do-Pai marca que há algo que a mãe deseja para além da criança, algo que escapa à relação dual.

A Lei do Pai, nesse contexto, é a lei do significante, a lei da castração simbólica que estrutura o desejo. Ela não se confunde com normas morais contingentes, mas remete à estrutura mesma da linguagem: para que haja significação, é preciso que haja perda, corte, exclusão. O Nome-do-Pai é o significante que garante essa estrutura, que “amarra” o sujeito ao campo do Outro e possibilita a metáfora, a substituição significante, a circulação do desejo. 

É a partir dessa formalização que Lacan introduz a noção de foraclusão do Nome-do-Pai para pensar a psicose. Na neurose, o Nome-do-Pai está simbolicamente inscrito, ainda que possa ser recalcado, contestado, deslocado. Na psicose, ao contrário, o Nome-do-Pai não foi simbolizado: ele foi foracluído, isto é, excluído do campo do simbólico. A consequência é que a Lei do Pai, enquanto operador de castração e de limitação do gozo, não se instala; o sujeito fica exposto a um gozo invasivo, não regulado pela lei simbólica, o que se manifesta clinicamente em fenômenos elementares, delírios, alucinações.

A foraclusão do Nome-do-Pai mostra, de maneira radical, que a Lei do Pai não é um adorno cultural, mas uma condição estrutural da subjetivação. Quando essa lei não se inscreve, o sujeito não encontra o limite simbólico que permitiria organizar o desejo e o gozo. A psicose, nesse sentido, é o avesso da Lei do Pai: em vez de uma lei que limita o gozo, há um gozo sem lei, que invade o corpo e o pensamento.

Nos desenvolvimentos posteriores de sua obra, especialmente quando introduz o nó borromeano, Lacan desloca novamente a função do Nome-do-Pai, concebendo-o como um quarto elo que pode vir a “amarrar” real, simbólico e imaginário. A Lei do Pai deixa de ser pensada como uma instância única e transcendente, para ser concebida como uma função que pode ser exercida de modos múltiplos, inclusive por “Nomes-do-Pai” no plural. Ainda assim, permanece a ideia de que é preciso algum operador que faça consistir o laço entre os registros e limite o gozo. 

Lei, desejo e castração: das Ding, objeto a e opacidade da lei

Um dos pontos mais sofisticados da elaboração lacaniana da Lei do Pai diz respeito à articulação entre lei e desejo. Longe de opor simplesmente lei e desejo, Lacan insiste que a verdadeira função do pai é unir lei e desejo puro, de modo que a lei não seja apenas repressão, mas também condição de acesso ao desejo como tal. A metáfora paterna, ao operar a substituição significante, não apenas limita o desejo, mas o constitui como desejo do Outro, desejo marcado pela falta. 

A referência a das Ding (a Coisa) é crucial aqui. Das Ding designa, em Lacan, um núcleo de gozo irredutível, um real que escapa à simbolização. A metáfora paterna, ao declinar das Ding à dignidade de um objeto empírico, produz uma espécie de saturação da falta transcendente pela falta de um objeto fenomênico. Em outras palavras, a Lei do Pai permite que o vazio de das Ding seja reconhecido na opacidade da lei: a lei aponta para um lugar de falta, de impossibilidade, que é ao mesmo tempo o lugar do desejo.

Com a invenção do objeto a, Lacan radicaliza essa articulação. O objeto a é o objeto causa do desejo, resto inassimilável da operação significante, correlato da castração. A Lei do Pai, enquanto Nome-do-Pai, torna-se não apenas o significante que reconhece o desejo puro no interior da lei, mas também o operador que permite a elevação de um objeto empírico à dignidade da Coisa. A sublimação, nesse contexto, é pensada como a operação pela qual um objeto qualquer é elevado à dignidade de das Ding, graças à mediação da lei simbólica. 

Essa perspectiva permite compreender por que, em psicanálise, não se trata de abolir a lei em nome de um suposto “desejo livre”, mas de interrogar a relação singular de cada sujeito com a lei que o constitui. A Lei do Pai não é um imperativo externo que se poderia simplesmente rejeitar; ela é a forma mesma pela qual o sujeito se inscreve na linguagem e no desejo. A clínica, então, não visa restaurar um pai ideal ou reforçar normas sociais, mas trabalhar com as modalidades singulares de inscrição da lei, com as suplências possíveis quando o Nome-do-Pai falha, com as invenções que cada sujeito produz para amarrar lei e desejo.

Ao mesmo tempo, a opacidade da lei, sua dimensão de enigma, de não transparência, é constitutiva. O Nome-do-Pai não oferece um sentido último, uma garantia metafísica; ele marca, antes, um ponto de não saber, um limite. A Lei do Pai é, nesse sentido, uma lei sem garantia, uma lei que remete a um real impossível de simbolizar completamente. Essa dimensão é crucial para evitar qualquer leitura moralizante ou normativista da função paterna.

Desdobramentos clínicos e contemporâneos da Lei do Pai

A discussão contemporânea sobre a função paterna e a Lei do Pai se dá em um cenário marcado por transformações profundas nas formas de família, nas figuras de autoridade e nas modalidades de laço social. Multiplicação de arranjos familiares, declínio de certas figuras tradicionais de autoridade, emergência de novos discursos sobre gênero e parentalidade: tudo isso leva a interrogar se a categoria de pai, tal como formulada pela psicanálise, ainda é pertinente.

Uma das contribuições importantes da literatura psicanalítica recente é insistir na distinção entre o papel social do pai e a função paterna enquanto conceito teórico. O pai social, o “pai de família”, o provedor, a figura de autoridade patriarcal, pode estar em crise, ser contestado, transformado. Isso não implica, porém, que a função paterna, enquanto operador simbólico de castração e de introdução da lei, tenha se tornado obsoleta. Confundir esses planos leva a equívocos diagnósticos e clínicos, como apontam autores que discutem a noção de “neossujeitos” e as novas formas de sofrimento psíquico. 

Na clínica, a questão se coloca em termos de como, em cada caso, a Lei do Pai se inscreve ou falha em se inscrever. Em certas configurações, observa-se uma fragilização das referências simbólicas, uma dificuldade de localizar um significante que faça limite ao gozo. Isso pode se manifestar em formas de acting out, passagens ao ato, adições, ou em uma relação particular com o corpo e com os objetos de consumo, que parecem funcionar como suplências à falha da lei simbólica. A pergunta, então, não é se “faltam pais” no sentido sociológico, mas como se articulam, para cada sujeito, os Nomes-do-Pai possíveis, as instâncias que podem exercer a função de lei.

Lacan, em seus últimos desenvolvimentos, abre a possibilidade de pensar a pluralização dos Nomes-do-Pai. Em vez de um único Nome-do-Pai transcendental, haveria uma multiplicidade de significantes que podem, em certas condições, amarrar real, simbólico e imaginário. Isso permite pensar que a Lei do Pai pode ser exercida por diferentes figuras e dispositivos: não apenas o pai biológico, mas também uma mãe que se apoia em um significante de lei, uma instituição, um ideal, um sintoma. O importante é que haja algo que faça limite ao gozo e introduza o sujeito na lógica da falta.

Essa perspectiva é particularmente fecunda para pensar as novas configurações familiares (famílias monoparentais, homoparentais, recomposições familiares, etc.). A psicanálise não tem, nesse campo, um modelo normativo a defender; o que ela interroga é se, em cada arranjo, há ou não inscrição da Lei do Pai enquanto função simbólica. Uma família homoparental, por exemplo, pode perfeitamente assegurar a função paterna, desde que haja um significante de lei que limite o desejo e introduza a criança no campo do Outro. Inversamente, uma família “tradicional” pode falhar completamente nessa função, se o pai empírico não se articular à lei simbólica, permanecendo no registro do capricho ou da violência.

Por fim, a clínica contemporânea mostra também que a Lei do Pai pode ser vivida de modo excessivamente rígido, superegóico, produzindo sujeitos esmagados por ideais impossíveis, culpabilizados, inibidos. Nesses casos, o trabalho analítico pode consistir em descolar a lei do supereu feroz, reencontrando a dimensão de desejo que a lei deveria sustentar. A Lei do Pai, quando reduzida a mandamento superegóico, perde sua função de abrir o campo do desejo e se torna fonte de sofrimento. A análise visa, então, a uma rearticulação singular entre lei e desejo, que permita ao sujeito inventar seu próprio modo de se situar em relação à castração.

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund (1913). Totem e Tabu. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974, v. 13, pp. 13-194. 

Lacan, J. (1953–1954). O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.

Lacan, J. (1955–1956). O seminário, livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

Lacan, J. (1957–1958). O seminário, livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

Lacan, J. (1963–1964). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

Lacan, J. (1969–1970). O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

Lacan, J. (1966). Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

CABRAL, André Fernando Gil Alcon. Da metáfora à subversão do Nome-do-Pai: a relação entre a lei e o desejo na teoria de Lacan. Analytica,  São João del Rei ,  v. 9, n. 16, p. 1-24,  jun.  2020 .   Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2316-51972020000100004&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 17 fev. 2026.

SILVA, M. M.; ALTOÉ, S.. O pai: uma questão sempre atual para a psicanálise. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 21, n. 3, p. 333–342, set. 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/agora/a/ZB5RpqmKtxqspTwrRnk9Qvg/?format=html&lang=pt. Acesso em: 17 fev. 2026.

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É obrigatório ter graduação em psicologia ou medicina para fazer formação em psicanálise?

A questão sobre a obrigatoriedade, ou não, de possuir graduação em psicologia ou medicina para realizar formação em psicanálise é um dos temas mais debatidos no campo psicanalítico contemporâneo. A discussão envolve não apenas aspectos legais e institucionais, mas também fundamentos teóricos, concepções de transmissão, modelos de formação e divergências históricas entre escolas psicanalíticas. A psicanálise, desde Freud, constitui-se como um campo singular, com uma lógica própria de transmissão, que não se confunde com a formação universitária nem com as práticas regulamentadas por conselhos profissionais. Assim, compreender essa questão exige examinar a história das instituições psicanalíticas, a posição de Freud sobre o tema, as transformações introduzidas por Lacan e a relação entre psicanálise, psicologia e medicina no cenário brasileiro.

A posição freudiana sobre a formação do analista e a questão dos “leigos”

Sigmund Freud enfrentou diretamente o problema da formação do analista em textos fundamentais, como A questão da análise leiga (1926), Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912) e Sobre o ensino da psicanálise nas universidades (1919). Em A questão da análise leiga, Freud defende explicitamente a possibilidade de que não‑médicos exerçam a psicanálise, argumentando que a prática analítica não se reduz a um ato médico, nem se fundamenta em conhecimentos anatômicos, fisiológicos ou farmacológicos. Para Freud, o cerne da formação do analista é a análise pessoal, a supervisão e o estudo da teoria, e não a posse de um diploma universitário específico.

Freud afirma que a psicanálise não é um ramo da medicina, mas uma disciplina autônoma, fundada na investigação do inconsciente e na técnica da associação livre. Ele critica a tentativa de subordinar a psicanálise à medicina, considerando que tal movimento empobreceria o campo e limitaria sua expansão. A defesa freudiana do “analista leigo” não é um detalhe histórico, mas um ponto estrutural: a psicanálise, para Freud, não se define por uma profissão regulamentada, mas por uma posição subjetiva e por uma formação específica, que não coincide com a formação universitária.

É importante notar que Freud não rejeita a presença de médicos na psicanálise, muitos dos primeiros analistas eram médicos, mas recusa a ideia de que a medicina seja condição necessária para o exercício da psicanálise. A formação analítica, para ele, é sui generis: exige análise pessoal, estudo rigoroso e supervisão clínica, mas não requer uma graduação prévia específica.

A inflexão lacaniana e a crítica ao modelo universitário de formação

Jacques Lacan retoma e radicaliza a posição freudiana ao criticar a tentativa de institucionalizar a psicanálise segundo modelos universitários ou médicos. Em textos como Ato de Fundação (1964), Proposição de 9 de outubro de 1967 e diversos seminários, Lacan insiste que a formação do analista não pode ser reduzida a um currículo acadêmico, pois a psicanálise não é uma ciência universitária, mas uma prática que se transmite pela experiência do inconsciente.

Lacan critica o que chama de “discurso universitário”, que tende a transformar o saber em objeto de consumo e a formação em um processo burocrático. Para ele, a formação do analista é inseparável da análise pessoal e do desejo do analista, um conceito central que não pode ser avaliado por diplomas ou certificações externas. A criação do dispositivo do passe é uma tentativa de formalizar, dentro da própria comunidade analítica, um modo de verificar a formação que não dependa de títulos acadêmicos.

Assim como Freud, Lacan não exige formação em psicologia ou medicina. Pelo contrário, ele afirma que a psicanálise deve permanecer aberta a sujeitos de diversas formações, desde que se submetam ao tripé analítico: análise pessoal, supervisão e estudo teórico. A formação universitária pode ser útil, mas não é determinante.

A institucionalização da psicanálise e a questão jurídica no Brasil

No Brasil, a psicanálise não é regulamentada como profissão por conselhos federais, ao contrário da psicologia e da medicina. Isso significa que, juridicamente, não há exigência de graduação em psicologia ou medicina para exercer a psicanálise. A psicanálise é reconhecida como uma prática de natureza privada, de caráter não regulamentado, e sua formação é tradicionalmente conduzida por sociedades psicanalíticas, institutos e escolas.

Entretanto, a ausência de regulamentação não implica ausência de rigor. As instituições psicanalíticas sérias, filiadas a tradições freudianas, lacanianas, kleinianas, winnicottianas, bionianas, entre outras, mantêm critérios próprios de formação, que incluem:

  • análise pessoal prolongada;
  • supervisão clínica contínua;
  • estudo teórico sistemático;
  • participação em seminários e grupos de trabalho;
  • avaliação interna da formação.

Algumas instituições optam por exigir graduação em psicologia ou medicina, mas isso é uma escolha institucional, não uma exigência legal. Outras mantêm a tradição freudiana e lacaniana de aceitar candidatos de diversas áreas, desde que demonstrem compromisso com a formação e com a ética psicanalítica.

É importante distinguir:

  • exigência legal (não existe);
  • exigência institucional (varia conforme a escola);
  • exigência ética e formativa (sempre presente, independentemente da graduação).

A relação entre psicanálise, psicologia e medicina: convergências e tensões

A confusão entre psicanálise, psicologia e medicina decorre, em parte, da história da psicologia clínica e da psiquiatria. No Brasil, a psicologia é uma profissão regulamentada desde 1962, e o psicólogo clínico é autorizado a realizar psicoterapia. A medicina, por sua vez, regula a psiquiatria como especialidade médica. A psicanálise, porém, não se confunde com nenhuma dessas práticas.

A psicanálise não é psicoterapia no sentido técnico do termo, embora possa ter efeitos terapêuticos. Ela se funda em conceitos como inconsciente, transferência, pulsão, repetição, fantasia, desejo e interpretação, categorias que não pertencem à psicologia científica nem à medicina. A psicanálise opera no campo da fala e da escuta, e não no campo da intervenção médica ou da mensuração psicológica.

A formação universitária em psicologia pode oferecer conhecimentos úteis ao futuro analista, mas não substitui a formação psicanalítica. Da mesma forma, a formação médica pode ser relevante para compreender aspectos psiquiátricos, mas não garante a posição de analista. A formação psicanalítica é específica e exige um percurso singular, que não se reduz a diplomas.

A formação psicanalítica como experiência e transmissão: além dos diplomas

A formação do analista é, antes de tudo, uma experiência subjetiva. Freud e Lacan insistem que o analista só pode operar a partir da própria análise, que lhe permite confrontar-se com seu inconsciente, com sua transferência e com sua posição desejante. A supervisão é o espaço em que o analista em formação confronta sua prática com um analista mais experiente, elaborando impasses e refinando sua escuta. O estudo teórico é indispensável, mas não é suficiente: a teoria só ganha sentido quando articulada à experiência clínica.

Assim, a pergunta “é obrigatório ter graduação em psicologia ou medicina?” perde parte de sua força quando se compreende que a formação psicanalítica não é uma formação profissional tradicional. O analista não é definido por um diploma, mas por um percurso. A formação universitária pode ser um complemento, mas não é o núcleo da formação.

A psicanálise, enquanto campo, preserva sua autonomia ao manter um modelo de formação que não se submete às lógicas profissionais regulamentadas. Isso não significa ausência de rigor, mas rigor de outra ordem: rigor ético, rigor clínico, rigor teórico.

 
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