A publicação de Memórias de um Sargento de Milícias, originalmente veiculada sob a forma de folhetim no jornal Correio Mercantil entre 1852 e 1853 e reunida em livro logo em seguida, constitui uma das narrativas mais importantes da historiografia literária brasileira. Produzido por Manuel Antônio de Almeida (1831–1861) durante a vigência do Romantismo, o texto afasta-se consideravelmente das convenções ufanistas, indianistas ou sentimentalistas que caracterizavam os pares do autor. Almeida, médico e jornalista falecido precocemente no naufrágio do vapor Hermes, ambientou a narrativa no Rio de Janeiro do início do século XIX, o "tempo do rei", sob a regência de Dom João VI, oferecendo uma cartografia social da vida urbana periférica até então negligenciada pelas letras pátrias.
A estrutura narrativa organiza-se a partir de um narrador heterodiegético em terceira pessoa, cuja focalização se distancia da austeridade clássica para adotar um tom oral, crônico e por vezes cúmplice do leitor. Esse foco narrativo articula um tempo diegético que mescla a cronologia linear do amadurecimento do protagonista a incursões anacrônicas, pausando o enredo para analisar costumes, festas populares e tipos sociais. A verossimilhança do ecossistema ficcional constrói-se não pela cópia documental, mas pela apreensão precisa dos gestos, das sociabilidades e das contradições morais das camadas médias e baixas cariocas, afastando a obra da idealização e aproximando-a, antes do tempo, da objetividade proto-realista.
No centro dessa diegese situa-se Leonardo, figura cuja gênese, marcada pelo "fruto de uma pisadela e de um beliscão" entre o parteiro Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça, já assinala o tom cômico e desmitificado que rege a narrativa. Livre das convenções do herói romântico vertido de virtudes ou tragédias nobres, Leonardo inaugura a linhagem do anti-herói no romance brasileiro. Suas esferas de ação são pautadas pela ociosidade, pelas pequenas vigaristas e pela esquiva constante do trabalho formal. Ao ser abandonado pelos pais, passa à tutela do Padrinho (o barbeiro) e da Comadre (a parteira), figuras que funcionam como amortecedores sociais e articuladores de arranjos informais para livrar o jovem das consequências de suas travessuras.
A tensão dramática do romance constrói-se no embate entre a desordem personificada por Leonardo e a ordem institucional encarnada pelo Major Vidigal, o chefe da polícia de milícias. Vidigal representa a lei rígida e arbitrária de uma sociedade em formação, exercendo uma vigilância implacável sobre vadiações e capoeiragens. Contudo, longe de estabelecer um dualismo maniqueísta entre bem e mal, a economia narrativa revela que mesmo a autoridade máxima da ordem cede à lógica dos favores pessoais, do compadrio e do "jeitinho". É por meio da mediação de figuras femininas e do apelo ao passado do próprio Major que o destino de Leonardo transita da punição à integração do garoto à própria estrutura repressiva do Estado, ao ser nomeado sargento.
Esteticamente, o romance herda a tradição do romance picaresco espanhol, adaptando-o ao contexto tropical e urbano. O estilo de Almeida destaca-se pela economia verbal, pela ausência de adjetivações hiperbólicas e pelo uso refinado da ironia como recurso desnaturalizador da moral vigente. O pathos da obra não se apoia no sofrimento trágico ou na redenção espiritual, mas no riso crítico e na constatação pragmática de que as relações sociais brasileiras se fundam na flexibilidade das normas. A alternância entre o espaço doméstico e o espaço público da rua funciona como um laboratório onde se encena o que a crítica sociológica consagrou como a dialética entre a ordem e a desordem, garantindo ao texto uma permanência crítica e uma vitalidade formal raras em seu tempo.
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Memórias de um Sargento de Milícias
por Manuel Antônio de Almeida
Neste dinâmico romance de costumes, Manuel Antônio de Almeida registra com humor as atitudes e tradições da sociedade carioca em meados do século XIX. O atrapalhado protagonista Leonardinho figura, ao lado de Macunaíma, na galeria dos mais representativos anti-heróis de nossa literatura. O professor Mamede Jarouche, da Universidade de São Paulo, assina as notas explicativas e oferece um estudo polêmico, com documentação inédita sobre o autor e a obra. As ilustrações são de Marcelo Cipis. Prefácio e Notas Mamede M. Jarouche (USP) Ilustrações Marcelo Cipis.
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