O que significa Ab-reação para a Psicanálise?

No final do século XIX, período em que a medicina tradicional se mostrava incapaz de oferecer respostas satisfatórias para os muitos sintomas decorrentes de adoecimentos da mente, pacientes histéricas apresentavam paralisias, cegueiras, anestesias corporais e convulsões sem qualquer base orgânica detectável. Foi nesse cenário de complexidade que o método catártico teve seu fundamento, trazendo consigo a noção de que os afetos represados exerciam uma pressão enorme sobre o psiquismo, exigindo uma via de descarga para que a cura pudesse se realizar.

É nesse contexto que a ab-reação surge como o conceito que define o processo de descarga emocional pelo qual um indivíduo libera o afeto associado à recordação de um evento traumático. Quando um sujeito passa por uma experiência excessiva, na qual a intensidade do estímulo ultrapassa a sua capacidade de processamento e assimilação, ocorre o que a teoria psicanalítica conceitua como trauma psíquico. Nessas situações, o afeto correspondente ao evento não encontra uma saída natural, seja pela fala, pela ação ou por uma reação emocional adequada no momento em que o fato ocorreu. Impedido de se manifestar, essa quantidade de afeto permanece "estrangulado" no aparelho psíquico, promovendo uma cisão na consciência e ligando-se a representações que passam a atuar de forma somática, originando os sintomas neurovegetativos e corporais.

A dinâmica da ab-reação está fortemente apoiada na hipótese de que o psiquismo funciona sob a regulação do princípio de constância. Segundo este princípio, o aparelho mental tende a manter a quantidade de excitação presente em seu interior no nível mais baixo possível, ou, ao menos, constante. Quando uma impressão traumática introduz uma enorme carga de energia no sistema, a homeostase psíquica é severamente perturbada. Se o indivíduo não consegue reagir ao evento no exato momento de sua ocorrência, a energia residual precisa ser escoada posteriormente para que o equilíbrio seja restabelecido. A ab-reação é esse ato de descarga diferida, uma operação energética e afetiva na qual a lembrança do trauma é revivida sob hipnose ou através da associação livre, permitindo que a emoção represada finalmente encontre seu caminho de saída.

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Vale ressaltar que a eficácia da ab-reação não depende exclusivamente da rememoração intelectual do fato ocorrido. Freud e Breuer perceberam rapidamente que a simples recordação cognitiva de um acontecimento doloroso não possuía valor terapêutico se não fosse acompanhada pela vivência da carga afetiva original. Recordar um evento de forma fria, distante ou puramente racional mantém a energia traumática bloqueada, perpetuando o sintoma. O verdadeiro efeito catártico só se estabelece quando o sujeito relata o evento e, simultaneamente, reatualiza e expressa o afeto a ele conectado, seja por meio do choro, da raiva, do tremor ou da verbalização intensa. É a articulação precisa entre a representação mental e o afeto reanimado que permite a dissolução do nó sintomático.

O papel da linguagem na ab-reação é de extrema relevância, já que funciona como a principal via de escoamento e elaboração das cargas emocionais. Em muitas situações, a impossibilidade de reagir ao trauma no momento de sua ocorrência decorre de proibições sociais, de sentimentos de culpa ou do próprio estado de choque em que a vítima se encontra. Nessas circunstâncias, a fala atua como um substituto da ação, oferecendo uma ponte simbólica para que o afeto retido seja verbalizado e traduzido em palavras. Quando o paciente consegue nomear a dor, expressar o ressentimento ou verbalizar o terror reprimido, o afeto estrangulado ganha uma via de escoamento pela palavra, perdendo sua capacidade de se converter em sofrimento somático ou em obsessões psíquicas.

Com o avanço da pesquisa freudiana e o paulatino abandono da hipnose em favor do método da associação livre, o conceito de ab-reação sofreu transformações importantes em seu estatuto teórico. Inicialmente, a técnica psicanalítica acreditava que a cura se dava quase de forma mágica ou instantânea, bastando uma ab-reação violenta para descarregar o afeto e fazer desaparecer o sintoma de imediato. Contudo, a prática clínica revelou uma realidade muito mais complexa e resistente. Os pacientes frequentemente reapresentavam os mesmos sintomas ou deslocavam o sofrimento para novas formações substitutivas, demonstrando que a mera descarga energética, embora necessária, não era suficiente para promover uma transformação estrutural no psiquismo e no modo de funcionamento do sujeito.

Essa constatação levou Freud a integrar o mecanismo da ab-reação a um processo clínico mais amplo, minucioso e duradouro, conhecido como a elaboração psíquica. A partir dessa evolução conceitual, percebeu-se que o trauma não é apenas um bloco de energia aprisionado que precisa ser liberado, mas sim uma rede complexa de significados e cadeias associativas que envolvem a história do sujeito, suas defesas inconscientes e sua posição subjetiva frente ao desejo e à lei. Assim, a ab-reação deixa de ser vista como o fim último do tratamento e passa a ser compreendida como um momento preliminar ou um componente integrado ao trabalho analítico de tecer novas associações simbólicas, permitindo que o indivíduo reinscreva a experiência dolorosa em sua narrativa de vida de forma ressignificada.

A análise da ab-reação também exige uma investigação rigorosa sobre o destino dos afetos e das representações no inconsciente. Na teoria psicanalítica, o recalque não incide sobre o afeto em si, mas sobre a representação ideativa vinculada a ele. Quando o recalque atua, a ideia traumática é afastada da consciência, enquanto a carga afetiva correspondente sofre diferentes destinos: pode ser convertida no corpo, como ocorre na histeria de conversão; deslocada para outra representação inofensiva, como se observa nas fobias e na neurose obsessiva; ou permanecer flutuando sob a forma de uma angústia difusa e sem objeto. A ab-reação atua diretamente sobre essa energia deslocada ou aprisionada, religando o afeto à sua representação original e permitindo que ambos recebam um tratamento psíquico adequado.

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Outro aspecto fundamental do processo ab-reativo diz respeito ao papel desempenhado pela transferência na relação analítica. Nos primórdios do método catártico, a presença do médico e o vínculo afetivo estabelecido entre analista e analisando já demonstravam ser determinantes para que o paciente se sentisse seguro o bastante para reviver emoções avassaladoras. A ab-reação não ocorre no vácuo, mas sim no campo intersubjetivo da clínica, sustentada pela escuta analítica e pela presença acolhedora do terapeuta. É a garantia do enquadre analítico que permite ao sujeito encarar os conteúdos recalcados sem ser destruído pela intensidade dos afetos que emergem durante o processo de descarga emocional.

Na clínica contemporânea, embora o termo ab-reação seja mencionado com menor frequência em comparação aos primeiros textos de Freud, a sua lógica subjacente permanece plenamente ativa e relevante. A escuta psicanalítica continua a oferecer um espaço privilegiado para que as dores caladas, os lutos não chorados e os traumas antigos encontrem vias de expressão e escoamento. O sofrimento humano frequentemente se manifesta sob a forma de somatizações, compulsões e atuações justamente quando o sujeito não dispõe de meios para ab-reagir e simbolizar o excesso de excitação que o habita. A clínica psicanalítica reafirma a importância de transformar o afeto bruto em fala significada, promovendo uma reapropriação da própria história subjetiva.

A passagem do modelo energético da catarse para o modelo hermenêutico e estrutural da psicanálise não invalidou a relevância da descarga emocional, mas a reposicionou no quadro geral do tratamento. Entende-se hoje que o alívio sintomático proporcionado pela ab-reação precisa ser sustentado por uma modificação duradoura na economia psíquica do paciente. Sem a compreensão dos motivos inconscientes que levaram ao represamento do afeto e sem a análise das resistências que impediam sua manifestação, o sujeito tende a repetir os mesmos padrões defensivos e a criar novos sintomas para lidar com as tensões internas. Portanto, a ab-reação é um portal de entrada fundamental para a cura, mas necessita do trabalho constante da interpretação e da associação livre para consolidar seus efeitos.

Ao examinar as neuroses de guerra e os quadros de estresse pós-traumático, Freud pôde reavaliar o conceito de ab-reação sob a ótica da compulsão à repetição e do trauma maciço. Nesses episódios, o aparelho psíquico é inundado por uma quantidade imensa de estímulos sem que haja qualquer preparação prévia ou angústia sinalizadora. O indivíduo traumatizado tenta repetidamente reativar a cena dolorosa em seus sonhos ou em flashbacks na tentativa desesperada de dominar a excitação e ab-reagir o afeto que não pôde ser assimilado na hora do evento. Esse fenômeno demonstra como a busca pela ab-reação é uma tentativa intrínseca do próprio psiquismo para restaurar o equilíbrio e integrar o trauma à malha simbólica do sujeito.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria. Tradução de Paulo César de Souza e Laura Barreto. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

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FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer. 1. ed. Belo Horizonte-MG: Autêntica, 2020.

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LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2022.

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Revista Organon celebra 60 anos de obra clássica de Émile Benveniste com chamada para dossiê especial

A Organon, revista acadêmica vinculada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), está com submissões abertas para o seu número 83. O volume especial é dedicado ao tema "Tendências recentes em linguística benvenistiana: os 60 anos da publicação de Problemas de Linguística Geral I". Após a extensão do cronograma, os pesquisadores interessados têm até o dia 12 de outubro de 2026 para enviar suas contribuições, cujo período de submissão teve início em 8 de julho.

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O objetivo central do dossiê é homenagear o sexagésimo aniversário da obra seminal do linguista Émile Benveniste, oferecendo um panorama amplo sobre a atualidade e o alcance de suas ideias no debate linguístico contemporâneo. A chamada acolhe artigos que abordem a relação entre tradição e renovação nos estudos da linguagem a partir do diálogo entre Saussure e Benveniste, bem como as contribuições do autor para a Linguística Geral e a Antropologia da Linguagem. Também estão no escopo do número as análises sobre o valor teórico-metodológico de manuscritos e textos autógrafos de Benveniste, o papel de seu pensamento na formação de linguistas e as conexões de sua teoria com outras áreas das Ciências Humanas.

Com organização assinalada pelas professoras Heloisa Monteiro Rosário, da UFRGS, e Gabriela Barboza, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), a publicação aceitará artigos científicos redigidos em português, francês, inglês e espanhol, promovendo uma discussão internacional em torno do legado benvenistiano.

Revista Mediações abre chamada de artigos para dossiê sobre as conexões entre Sociologia e Comunicação Política

A Revista Mediações convoca a comunidade acadêmica para submeter artigos originais ao seu novo dossiê dedicado a articular os campos da Sociologia e da Comunicação Política. Partindo da premissa de que fenômenos como plataformização, polarização e desinformação tornaram-se centrais na sociedade contemporânea, a publicação busca incentivar a produção sociológica em uma área historicamente pautada pela Ciência Política e pela Comunicação. A organização científica está a cargo dos pesquisadores Natasha Bachini, da Universidade de São Paulo, e Victor Piaia, da FGV Comunicação.

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O dossiê convida pesquisadoras e pesquisadores a aplicar teorias, conceitos e métodos sociológicos na reinterpretação do ecossistema informativo e das disputas sociais. Serão aceitos trabalhos que investiguem desde manifestações no cotidiano, tais como redes de sociabilidade, movimentos sociais, ambiente familiar e educação, até estruturas complexas que envolvem economia política das plataformas, inteligência artificial, indústria cultural e ideologia. As contribuições podem focar no ecossistema digital ou abordar mídias tradicionais como rádio, televisão, jornais e panfletos, cobrindo eixos amplos que incluem eleições, colonialismo, guerra cultural e novos arranjos da ação coletiva.

As submissões de artigos inéditos podem ser feitas nos idiomas português, espanhol e inglês até a data limite de 31 de outubro de 2026. Os textos aprovados pela comissão editorial e pelos pareceristas comporão o dossiê com publicação prevista para abril de 2027.

Breve crítica do filme Truly Naked (2026)

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Cartaz do filme Truly Naked (2026). Fonte: IMDb.

Assistir ao filme Truly Naked (2026), longa-metragem da diretora holandesa Muriel d'Ansembourg, foi surpreendentemente positivo. Digo surpreendente porque a absoluta maioria dos filmes que tentam trazer representações estéticas do mal-estar que integra a indústria do entretenimento adulto geralmente só entrega caricaturas rasas que pouco fazem refletir. Truly Naked consegue fugir desse lugar comum, entregando uma narrativa minimamente madura e provocante.

O filme gira em torno de Alec, um adolescente introvertido que vive uma rotina, digamos, no mínimo, incomum: ele atua como operador de câmera e editor dos filmes pornográficos caseiros produzidos por seu pai. Embora pareça totalmente adaptado a encarar a sexualidade apenas como uma performance mecânica por trás das lentes, sua calmaria passa por uma reviravolta ao se aproximar, contra a sua vontade, de Nina, uma colega de classe de atitude independente que o força a encarar o sexo e os relacionamentos sob a ótica da intimidade e da vulnerabilidade reais.

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Caolán O'Gorman é Alec em Truly Naked (2026). Fonte: IMDb

Alec é interpretado pelo ator norte-irlandês Caolán O'Gorman, cuja atuação consegue ser convincente graças à sua capacidade de nos entregar uma timidez que contrasta com o ambiente no qual ele está inserido na vida privada, e que pode ser bem evidenciada na sua falta de coragem de olhar nos olhos dos demais personagens, em especial do seu par romântico, demonstrando como o ambiente pornográfico gera conflitos internos, traumas, que influenciam na dinâmica afetiva de um sujeito. Ou seja, Alec é um jovem que sabe bastante sobre anatomia e como capturá-la com a câmera, mas pouco sobre conexões humanas.

Safiya Benaddi interpreta Nina, em uma atuação que entrega um magnetismo incrível, cuja personagem estabelece o verdadeiro motor emocional da narrativa. Gostei do modo como a atriz consegue entregar uma presença em cena totalmente natural e desarmada, equilibrando vulnerabilidade e firmeza ao dar vida a uma jovem de atitude independente que se recusa a ser reduzida a uma mera projeção ou fantasia do seu par romântico. Benaddi conseguiu demonstrar uma química orgânica e sensível ao lado de O'Gorman, e também introduzir mais humanidade e autenticidade à trama, sendo crucial para guiar o protagonista para fora de sua bolha de desapego e forçá-lo a encarar os riscos e as lições de uma intimidade real.

Safiya Benaddi é Nina em Truly Naked (2026). Fonte: IMDb

Andrew Howard e Alessa Savage, embora estejam mais fixos na interpretação de personagens de dentro da indústria erótica, também entregam uma carga dramática digna de aplausos, ele como um pai que tenta lidar com as necessidades próprias do contexto em que vive e da relação com o filho; ela como uma atriz pornô que faz refletir como é esse meio, sobretudo para as mulheres. A cena em que dialoga com Nina sobre a contradição do discurso feminista em relação à atividade feminina na indústria pornô é bastante interessante.

O grande acerto do longa é inverter o clichê da provocação. Como disse no início dessa crítica, em um ambiente cinematográfico tão saturado por filmes que possuem pouco a dizer, a verdadeira "transgressão" de Truly Naked não está no choque da pornografia, mas na dificuldade do protagonista de experimentar um afeto desarmado. A metáfora do título revela que despir-se do corpo é fácil; despir-se das câmeras e fantasias para estar genuinamente presente é o verdadeiro desafio.

A direção de d'Ansembourg evita cair na armadilha do puritanismo ou da mera demonização do setor adulto, o que é algo positivo em se tratando de um longa que pretende ir além do senso comum. Ela retrata a dinâmica entre pai e filho com nuances complexas, mesclando um carinho doméstico autêntico com uma clara irresponsabilidade paterna, além de dar espaço e voz às atrizes de conteúdo adulto sem tratá-las como meras vítimas estigmatizadas.

Único ponto que não me empolgou foi o fato de o roteiro tentar dar lugar a muitos subtemas ao mesmo tempo, como é o caso do vício em pornografia digital e as inserções de discurso dos papéis de gênero, os quais acabaram sendo subutilizados e servindo pouco à narrativa em si. Também achei muito conveniente o trabalho escolar sobre vício em pornografia digital, embora entenda que essa facilitação foi necessária para convergir os personagens.

O que significa Afeto para a Psicanálise?

O desenvolvimento subjetivo de todo ser humano é atravessado por uma dualidade que intriga a psicanálise desde a sua fundação: de um lado, as ideias que formam o pensamento; de outro, a intensidade viva que faz o corpo pulsar e, por vezes, sofrer. Essa intensidade viva, que se traduz em estados como angústia, alegria, medo, vergonha ou amor, é o que a teoria psicanalítica denomina afeto. Diferente do modo como esse termo é utilizado no senso comum, não se trata de um sinônimo para emoção ou sentimento, mas sim de um dos fundamentos para a compreensão do funcionamento do aparelho psíquico, exercendo um papel crucial na dinâmica do inconsciente, na constituição dos sintomas e na condução do tratamento clínico.

No final do século XIX, ao investigar as manifestações da histeria, Sigmund Freud percebeu que a mente humana lida constantemente com quantidades de energia. O psiquismo funciona sob um princípio econômico que busca manter o nível de excitação o mais baixo possível. Diante de um evento traumático ou de uma experiência marcante, o sujeito recebe um fluxo de energia que precisa ser descarregado ou elaborado. Quando essa descarga não ocorre de forma adequada, a energia fica retida, e a representação do evento perde o seu acesso à consciência. É precisamente nesse cenário que se desenha a distinção fundamental que revolucionou a metapsicologia: a cisão entre a representação e a quantidade de afeto.

A representação equivale ao conteúdo ideacional, à imagem mnêmica, à palavra ou ao pensamento que se refere ao fato vivido. O afeto, por sua vez, representa o aspecto quantitativo e dinâmico dessa experiência, a carga de energia psíquica que acompanha a ideia. Na concepção freudiana, o destino dessas duas instâncias diante do recalque não é o mesmo. Quando um conteúdo causa um conflito insustentável com as exigências da realidade ou com o ideal do indivíduo, o mecanismo de defesa atua separando a ideia do seu afeto correspondente. A representação ideacional é empurrada para o inconsciente, onde permanece esquecida para a consciência, mas o afeto não pode ser simplesmente destruído ou apagado.

Por ter uma natureza essencialmente dinâmica e quantitativa, o afeto exige um destino. Ele é móvel e procura constantemente uma via de vazão ou de transformação. Se a representação inconsciente permanece recalcada, o afeto dela desligado pode seguir caminhos diversos, dando origem às mais variadas formas de sofrimento psíquico. Em alguns casos, essa carga energética é convertida em sintomas corporais, como ocorre na conversão histérica, em que uma angústia reprimida ganha corpo na forma de paralisias, dores sem causa orgânica ou cegueiras temporárias. Em outros cenários, o afeto se desloca e se liga a uma nova ideia aparentemente inofensiva, como se observa na neurose obsessiva ou nas fobias, em que o medo desproporcional de um objeto inofensivo nada mais é do que o afeto original deslocado de seu contexto verdadeiro.

Essa dinâmica serve como demonstração de que o afeto não reside propriamente no inconsciente da mesma forma que as representações. À vista disso, a psicanálise afirma que não existem afetos inconscientes no sentido de que um sentimento estaria guardado intacto em uma gaveta oculta da mente. O que está retido no inconsciente é a representação ideacional e o traço de memória. O afeto é sempre um acontecimento atual, um processo de descarga ou de percepção que ocorre no presente do sujeito, embora a sua origem esteja ancorada em conflitos históricos não resolvidos. Quando dizemos que alguém tem um afeto reprimido, queremos dizer que a potencialidade de sentir aquele afeto está bloqueada porque a ideia à qual ele deveria se ligar está inacessível.

A evolução do pensamento de Freud trouxe modificações significativas na maneira de conceber a angústia, que é considerada o afeto por excelência na psicanálise. Inicialmente, a angústia era vista como o resultado direto da libido recalcada que não encontrou escoamento, como se a energia represada se deteriorasse e se transformasse espontaneamente em estado de alerta e pavor. Mais tarde, com a reformulação da teoria das pulsões e o desenvolvimento da segunda tópica psíquica, a relação entre causa e efeito foi invertida. A angústia passou a ser compreendida como um sinal emitido pelo ego diante da percepção de um perigo iminente, seja esse perigo a perda do objeto de amor, a perda do amor do objeto ou a ameaça de aniquilamento. É o afeto de angústia que aciona o mecanismo do recalque, e não o contrário, demonstrando a função estruturante e preventiva que os afetos desempenham na economia mental.

A transição entre a ideia e a sensação corporal aponta para uma característica essencial do afeto: sua natureza fronteiriça. O afeto habita o limiar entre o somático e o psíquico. Ele possui componentes motores e excretores, traduzindo-se em alterações na frequência cardíaca, tremores, respiração acelerada, vertigens e lágrimas, mas simultaneamente carrega uma tonalidade subjetiva, uma qualidade de prazer ou desprazer que é registrada pela consciência. Não há afeto sem corpo, pois é no corpo que a descarga pulsional ganha visibilidade e sensação. A pulsão, que é a força motriz do psiquismo, encontra na representação a sua linguagem e no afeto a sua expressão de intensidade.

A ampliação da teoria psicanalítica por autores subsequentes trouxe novos olhares sobre a questão da afetividade e do relacionamento interpessoal. Ao investigar as fases mais primitivas do desenvolvimento infantil, observou-se que a constituição do sujeito depende intrinsecamente da qualidade dos afetos compartilhados entre o bebê e seus cuidadores primários. O ambiente inicial precisa oferecer um suporte afetivo capaz de traduzir o caos somático da criança em experiências psíquicas assimiláveis. Quando a mãe ou o cuidador acolhe o choro e a agitação do bebê, devolvendo-lhes um sentido através do olhar, da palavra e do toque, está ocorrendo uma verdadeira alfabetização afetiva. A capacidade de nomear, tolerar e integrar as próprias sensações depende da forma como as primeiras manifestações de angústia foram acolhidas na infância.

Em situações em que ocorrem falhas graves nessa função de mediação, o sujeito pode desenvolver uma dificuldade profunda em entrar em contato com o seu mundo interno. Surgem aí quadros marcados por uma desconexão entre a linguagem verbal e a vida emocional, onde as sensações corporais não encontram tradução em palavras e os conflitos são descarregados diretamente em atos impulsivos ou em somatizações graves. Nesses casos, o afeto parece atuar de forma crua e desorganizada, sem a mediação simbiótica das representações, gerando um sentimento persistente de vazio e um sofrimento de difícil localização.

No contexto do tratamento clínico, o conceito de afeto assume uma importância fundamental. A psicanálise não é uma terapia puramente intelectual ou pedagógica. A mera compreensão racional dos próprios traumas ou a descoberta intelectual de um desejo recalcado não possuem, por si sós, o poder de dissolver um sintoma persistente. Para que uma transformação psíquica genuína aconteça no setting terapêutico, o processo de recordação e elaboração precisa estar acompanhado pela rememoração da carga energética original. É aquilo que Freud denominava ab-reação: a liberação do afeto acumulado através da sua associação verbal com a lembrança traumática.

Durante a sessão analítica, essa dinâmica ganha contornos mais claros por meio da transferência. O paciente não apenas relata a sua história ao analista de forma neutra, mas atualiza no presente da relação terapêutica os afetos, os amores, os ódios, as rejeições e as expectativas que marcaram as suas primeiras relações objetais. O analista torna-se a tela sobre a qual são projetadas essas intensidades emocionais. É precisamente ao manejar essa tempestade afetiva que se abre a oportunidade de reescrever a história do sujeito. Ao encontrar no terapeuta uma escuta capaz de suportar e não julgar os afetos mais destrutivos ou vergonhosos, o paciente pode reconfigurar as suas defesas e dar um novo sentido às suas vivências.

É preciso sublinhar que o objetivo da clínica psicanalítica não é a eliminação das paixões ou o alcance de um estado de serenidade plena e puramente racional. O ser humano é constitutivamente atravessado pela pulsão e pelo conflito. O objetivo do trabalho analítico consiste em permitir que o sujeito consiga suportar a complexidade de sua vida afetiva, saindo da repetição cega dos sintomas e conquistando a liberdade de sentir sem ser devastado. Trata-se de construir pontes mais sólidas entre as intensidades do corpo e o universo das palavras, permitindo que a angústia, o desejo e o amor possam circular de forma mais fluida e menos destrutiva.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. (1914-1916). Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, vol. 12.

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FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia. 1. ed. Belo Horizonte-MG: Autêntica, 2026.

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LACAN, Jacques. O Seminário, livro 10: A angústia. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

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LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2022.

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WINNICOTT, Donald. Da pediatria à psicanálise: Escritos reunidos. Tradução de Davy Bogomoletz. 2. ed. São Paulo: Ubu Editora, 2025.

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Revista Civitas abre chamada para submissões sobre o papel das moedas complementares nas políticas públicas

A Civitas – Revista de Ciências Sociais, periódico mantido pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), anunciou a abertura de chamadas de artigos para o dossiê temático intitulado "As Moedas Complementares como Inovação: Debates Teóricos e Metodológicos no Campo da Política Pública". O objetivo principal do volume é reunir contribuições teóricas e empíricas que analisem de que forma essas ferramentas financeiras e comunitárias atuam na transformação social e no desenvolvimento territorial.

A publicação busca consolidar perspectivas plurais vindas do Brasil e do exterior para mapear tanto as potencialidades quanto as limitações das moedas sociais nos processos de inclusão produtiva e humana. Por essa razão, a equipe editorial encoraja o envio de pesquisas vinculadas às Ciências Humanas e Sociais, com foco especial em abordagens da Sociologia, da Antropologia, da Ciência Política e das Relações Internacionais.

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A chamada abrange uma ampla diversidade de eixos investigativos. Serão aceitos trabalhos sobre moedas comunitárias e municipais, análises de arcabouços legislativos, estudos focados em tecnologia e inovação, além de pesquisas aplicadas ao uso de big data. O dossiê também abre espaço para reflexões transversais sobre o impacto dessas iniciativas em temas essenciais como o combate à pobreza e ao estigma, a promoção da autonomia, o fortalecimento de laços de solidariedade, o pertencimento identitário e o incentivo ao desenvolvimento socioeconômico local.

Os pesquisadores interessados em integrar o volume especial devem submeter os artigos entre os dias 1º de setembro e 30 de novembro de 2026. As diretrizes completas de formatação e as orientações para o envio dos manuscritos podem ser consultadas diretamente no sistema de submissão eletrônica do periódico.

Mais informaçõeshttps://revistaseletronicas.pucrs.br/civitas/announcement/view/814